- 3 de mar
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BRASIL EM INTERREGNO: DO COLAPSO DA NOVA REPÚBLICA AO TESTE DECISIVO DE 2026

Por Pedro H. Otoni . Cientista Político
Cientista Político, consultor, pesquisador e especialista em métodos de Análise de Conjuntura e Planejamento Estratégico.
1. INTRODUÇÃO
Este Boletim Especial de Conjuntura trata-se de uma análise mais profunda do atual período histórico, parte da hipótese central de que o Brasil atravessa um interregno: o regime político da Nova República entrou em colapso, mas um novo arranjo institucional capaz de produzir coordenação estável entre os atores ainda não se constituiu. A análise busca explicar como esse processo se formou historicamente e por que, no presente, a disputa política deixou de operar como um “jogo repetido” de alternância aceitável, aproximando-se de uma lógica de soma zero, em que a própria legitimidade das regras passa a ser permanentemente contestada.
O Brasil atravessa um interregno: a Nova República entrou em colapso, mas um novo arranjo institucional ainda não se constituiu.
A estrutura do texto é organizada em três movimentos principais. O primeiro (Seção 2) reconstrói o ocaso da Nova República em quatro etapas — nascimento, maturidade, morte e interregno — articulando condicionantes externos (crise de hegemonia estadunidense), rearranjos internos e a progressiva institucionalização do neoliberalismo como paradigma de Estado. Em seguida (Seção 3), o texto formula o sistema atual de contradições, definindo a contradição geopolítica “imperialismo vs. soberania” como eixo do plano mundial e mostrando como ela sobredetermina o interregno brasileiro; nesse quadro, identifica-se a contradição principal no plano nacional como democracia vs. autoritarismo, examinando seus polos — a extrema direita bolsonarista e o PT — e suas bases sociais.
A contradição ‘imperialismo vs. soberania’ sobredetermina o interregno brasileiro; no plano nacional, a disputa central é ‘democracia vs. autoritarismo’.
A partir disso, desenvolve-se a necessidade de superação da contradição principal (Seção 4), problematizando os limites do polo democrático e a maior coerência estratégica do polo autoritário no contexto do capitalismo dependente, antes de concluir com os desafios imediatos para 2026 (Seção 5), em que as eleições aparecem como acontecimento estruturante e teste concentrado da conjuntura.

2. O OCASO DA NOVA REPÚBLICA
2.1 . O NASCIMENTO: CRISE DE HEGEMONIAESTADUNIDENSE E SOLUÇÕES NEGOCIADAS
O processo de redemocratização brasileira foi resultado de uma alteração estrutural das condições que sustentavam a reprodução ampliada do poder político do Regime Militar (1964-1985), tanto no plano interno quanto externo. Ao longo da década de 1970, a instabilidade da liderança dos Estados Unidos — marcada pela crise do sistema de Bretton Woods (1971), pelos choques do petróleo (1973) e pela derrota no Vietnã (1975) — reduziu a capacidade de Washington de oferecer respaldo político, econômico e estratégico irrestrito a regimes autoritários a ele subordinados1.
1 A chegada de Jimmy Carter (Partido Democrata) à Casa Branca, em 1977, representou uma inflexão relevante no ambiente estratégico internacional que sustentava ditaduras na América Latina, incluindo a brasileira. Ao adotar a defesa dos direitos humanos como eixo explícito da política externa norte-americana, Carter rompeu com a prática predominante desde o pós-1964, na qual o anticomunismo funcionava como critério quase exclusivo de alinhamento geopolítico.
Essa mudança não significou uma oposição direta ou imediata à ditadura brasileira, mas reduziu de forma significativa o apoio político, diplomático e simbólico que garantiria a sustentação externa ao regime. Essa inflexão alterou os custos do regime ditatorial: ampliaram-se os riscos de sanções e enfraqueceu-se a expectativa de respaldo automático em situações de crise interna. Ao sinalizar que a repressão sistemática deixaria de ser tolerada como estratégia legítima de governabilidade, o Governo Carter (1977-1981) contribuiu para desestabilizar o regime autoritário brasileiro, reforçando a percepção, entre setores militares e civis, de que a transição controlada passaria a ser uma alternativa razoável para preservar interesses da classe dominante e reduzir perdas futuras potencialmente dramáticas, caso organizações de caráter antiimperialistas conquistassem força social em meio a crise, como ocorreu no Irã e Nicarágua em 1979.
Esse enfraquecimento do centro hegemônico coincidiu com a deterioração das bases internas da ditadura, que dependiam de crescimento econômico acelerado, controle político rígido e coesão no interior das Forças Armadas. A combinação desses fatores deslocou o regime de uma posição relativamente estável para um cenário de incerteza estrutural, no qual sua manutenção passou a produzir custos superiores aos benefícios para as classes economicamente dominantes.
O chamado “Milagre Econômico” (1969–1973) foi o principal elemento que, temporariamente, garantiu a estabilidade do regime ao elevar os benefícios da cooperação entre militares e a burguesia nacional dependente, por meio do crescimento acelerado do PIB (que crescia 10% ao ano), da expansão da infraestrutura e do fortalecimento da indústria de base, financiados pelo endividamento externo. Contudo, esse modelo mostrou-se estruturalmente frágil: ao se esgotar o ciclo de alta liquidez internacional (crédito) e se intensificarem os efeitos da crise econômica global, o regime perdeu sua capacidade de sustentar o crescimento, conter a inflação e administrar os conflitos sociais emergentes, em especial com a classe trabalhadora, que ampliou seu contingente substancialmente durante os anos anteriores. É evidente que a crise do regime militar não decorre apenas do fim do “milagre”, mas do fato de que, sem crescimento, o autoritarismo deixou de ser um arranjo político benéfico para a própria burguesia que o sustentava, abrindo espaço para uma transição negociada como solução menos custosa para os principais atores do sistema político.
Diante da derrota militar das organizações revolucionárias brasileiras, a “oposição tolerada” ao regime militar brasileiro se transformou em a única alternativa política com força suficiente para atuar e adotou uma estratégia claramente orientada para um jogo de longo prazo, baseada na aceitação tática das regras formais impostas pela ditadura — em especial por meio da atuação do MDB —, no acúmulo gradual de força institucional e na ampliação contínua da pressão social (greves, denúncias de todo tipo, etc.), evitando deliberadamente o confronto armado, que elevaria os custos e fortaleceria a coesão repressiva do regime.
Essa estratégia mostrou-se decisiva quando o movimento das “Diretas Já” (1983–1984) operou como uma variável exógena de grande magnitude sobre o bloco dominante, alterando de forma qualitativa o ambiente político do regime. Tal mobilização foi precedida e preparada por um reascenso do movimento de massas no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, impulsionado pelas greves operárias no sudeste, pelo surgimento do novo sindicalismo e pela reorganização de diversos movimentos sociais. Nesse processo, a campanha pela Anistia, iniciada em 1975 e ampliada nacionalmente a partir de 1977, desempenhou papel central ao articular familiares de presos políticos, exilados, militantes de esquerda, setores da Igreja Católica, juristas, intelectuais e movimentos populares, organizados em torno do Comitê Brasileiro pela Anistia. A reivindicação de uma anistia ampla, geral e irrestrita transformou a denúncia da repressão e da violência estatal em uma causa pública de massas, elevando os custos políticos e internacionais do autoritarismo e rompendo o isolamento imposto à oposição. Esse acúmulo social reduziu a capacidade do regime de controlar expectativas — inclusive no interior do empresariado — e expôs de forma mais nítida suas divisões internas, de modo que, quando surge o movimento Diretas Já, a demanda democrática já se apresentava como força social organizada, tornando ainda mais instável a ditadura militar e reforçando a necessidade mudança de regime.
Internamente, a fragmentação das Forças Armadas atuou como variável autônoma, decisiva para o colapso do arranjo autoritário. A partir da segunda metade da década de 1970, o regime deixou de operar como um ator unitário, passando a ser atravessado por um conflito estratégico entre a chamada linha-dura, defensora da manutenção do autoritarismo por meio da repressão ampliada, e setores pragmáticos do alto comando, que avaliavam que a continuidade do regime elevaria os custos institucionais, políticos e internacionais para a caserna. Esse conflito produziu um problema de coordenação no núcleo dirigente do Estado, enfraquecendo a credibilidade da repressão, gerando incertezas quanto à sucessão presidencial e reduzindo a capacidade do regime de impor disciplina interna e previsibilidade externa.
As pressões exógenas e o esgotamento econômico podem ser avaliadas como condições necessárias, mas não suficientes para a mudança de regime no caso brasileiro, ocorreu ainda o cálculo endógeno do núcleo dirigente do estado, destinado a preservar a hierarquia, a unidade institucional e os interesses corporativos das Forças Armadas diante de um regime que já não conseguia se reproduzir de forma coesa.
A partir desse ponto, a repressão deixou de ser crível, o empresariado, a verdadeira base civil da ditadura, passou a buscar a negociação, e a unidade da cúpula das Forças Armadas se fragmentou, fazendo da “abertura política assistida” a proposta com menos danos colaterais. A eleição indireta de Tancredo Neves simboliza esse pacto de saída, no qual os militares preservaram autonomia institucional e garantias de anistia, a burguesia conservou sua posição econômica, o imperialismo estadunidense manteve o Brasil dentro da sua área de influência, assim o regime logrou estabelecer seus próprios termos de encerramento, evitando sua queda pela via revolucionária, se defendendo de uma possível insurreição de massas, cujos desdobramentos ultrapassariam, pelo menos como possibilidade, a mudança de regime político e poderia caminhar, para uma ruptura na estrutura social. Assim nasce a Nova República.
A Nova República nasce de um pacto de saída em que o regime estabelece seus próprios termos de encerramento.
A Nova República se desenvolveu como um processo político de transferência do poder efetivo da liderança militar para a civil; no entanto, essa mudança não alterou o poder real das classes proprietárias2. E mais, o poder efetivo das Forças Armadas não foi completamente transferido, parte dele foi preservado para garantir o status de condicionador do regime democrático que surgia, aspecto que se mantém até os dias atuais. Significou preservar interesses centrais do empresariado e a impunidade dos militares, ao mesmo tempo em que incorpora novos atores e amplia os canais formais de participação política.
2 Para entender a distinção entre poder real e efetivo, é importante recorrer à formulação de Jorge Graciarena. Para o autor argentino, há uma distinção em dois planos analíticos. Poder real (ou “situação objetiva de poder”) designa a capacidade de ação de grupos e setores sociais derivada de sua posição estrutural na sociedade, fundada sobretudo em bases econômicas — isto é, na posse, no controle ou na disposição da propriedade e na posição ocupada na estrutura produtiva. Já o poder efetivo (ou político) refere-se ao poder exercido por indivíduos ou grupos em razão da ocupação de posições institucionais com “significação política”, entendida em sentido amplo: não apenas cargos formais no aparato governamental, mas também quaisquer posições que influenciem decisivamente as decisões políticas — por exemplo, a chefia de um exército que intervém continuamente na conformação da situação política. GRACIARENA, Jorge. Poder y clases sociales en el desarrollo de América Latina. Buenos Aires: Paidós, 1967, pp 47-48
Nesse novo arranjo, consolidam-se três grandes polos partidários (centros gravitacionais dos demais partidos) com funções distintas e complementares no sistema político: o (P)MDB, herdeiro direto da oposição tolerada e principal fiador institucional da transição tendo como base de sustentação frações sociais heterogêneas que vão setores do empresariado, passando por camadas médias e populares; o PSDB, surgido do MDB, como expressão de uma fração modernizante e democrática da elite política e intelectual, comprometida com o setor financeiro, com a associação subordinada à globalização neoliberal; e o PT, ator novo e qualitativamente distinto, enraizado no movimento sindical urbano que ganha força no final dos anos 70, mas também nos movimentos sociais ligados a esquerda católica (Teologia da Libertação) tendo em sua composição militantes sobreviventes da luta armada.
A fundação do PT foi a introdução de um partido de massas no sistema político com uma clara identidade programática voltada para o conflito distributivo. Contudo, essa identidade se diferenciava da tradição trabalhista/varguista e comunista do período anterior a 1964. Assim, o PT se estabeleceu como o principal ator da contestação social, mas atuando dentro da nova ordem que estava em processo de formação.
Do ponto de vista das regras do novo regime, a Constituição de 1988 representa o elemento central da institucionalização da Nova República. Ela combina, de forma tensa, um caráter progressista no plano dos direitos sociais e civis — herdados no paradigma do Estado de Bem Estar Social já em decadência no resto do mundo no início dos anos 80 — com mecanismos conservadores de preservação do poder econômico e político. Ao ampliar direitos trabalhistas, sociais e políticos, a Constituição responde às pressões acumuladas durante os anos de chumbo; ao mesmo tempo, ao manter intactas as hierarquias sociais e econômicas. A Constituição de 1988 deve ser entendida tanto como um pacto democrático de natureza liberal, legitimada por eleições periódicas, quanto como um acordo de contenção, que amplia direitos ao mesmo tempo em que limita os caminhos de transformação radical. Ela é, portanto, contraditoriamente, um avanço significativo para “os debaixo” e uma solução conservadora para “os de cima”.
A Constituição de 1988 é, ao mesmo tempo, avanço para ‘os debaixo’ e solução conservadora para ‘os de cima’.
2.2 . A MATURIDADE: NEOLIBERALISMO E O ENVELHECIMENTO PRECOCE DA NOVA REPÚBLICA
A arquitetura do jogo da Nova República é um regime de competição eleitoral regulada, no qual a disputa ocorre, privilegiadamente, no interior das instituições e sob forte dependência da mediação parlamentar. O MDB se posiciona como partido de centro do sistema, especializado na construção de maiorias parlamentares e na negociação permanente, funcionando como eixo de “estabilidade conservadora” do regime. O PSDB, especialmente a partir dos anos 1990, atua como operador da adaptação do Estado brasileiro às exigências do capitalismo globalizado de natureza neoliberal, com uma agenda de privatizações, estabilidade monetária via altas taxas de juros, endividamento público e alinhamento profundo com Washington. Já o PT, embora inicialmente situado como força de contestação mais ativa, passa a enfrentar incentivos crescentes à moderação programática para acessar o Executivo, o que o empurra, progressivamente, para dentro da lógica de governabilidade que criticava.
A Nova República incorpora o conflito social, mas o canaliza para formas institucionais controladas, reduzindo a probabilidade de alternativas fora da ordem. Esse modelo, entretanto, não permaneceu estático. A partir dos governos do PSDB (1994-2002), o pacto institucional da Nova República passou a sofrer um novo condicionamento estrutural externo, decorrente da expansão do neoliberalismo no Ocidente, sendo os tucanos os agentes responsáveis por dirigir sua internalização no Estado brasileiro. Nesse contexto, a Constituição de 1988 deixa de operar como o único marco regulatório efetivo do jogo político, passando a ser progressivamente subordinada às diretrizes do Consenso de Washington, que impõem a redefinição do papel do Estado, promovem a mercantilização de serviços antes públicos e corroem as bases materiais do projeto de bem-estar social inscrito no texto constitucional.
O neoliberalismo, mesmo tendo origem na resposta dos EUA a sua crise nos anos 1970, no Brasil se consolida tardiamente, com uma década de atraso. Internamente, se apresenta como um mecanismo “tecnocrático” de enfrentamento à crise fiscal e inflacionária dos anos 1980, sendo consolidado nos anos 1990 como um novo regime de incentivos macroeconômicos voltado à estabilidade monetária (Plano Real). Esse arranjo se estrutura a partir do chamado tripé macroeconômico — metas de inflação, câmbio flutuante e superávit fiscal — que redefine as prioridades do Estado, deslocando o foco do desenvolvimento produtivo e da ampliação de direitos para o controle estrito da inflação e da dívida pública, o que beneficia de maneira extraordinária a burguesia financeira frente aos industriais, promovendo um mecanismo de concentração de riqueza extraordinário.
Como consequência central, o país entrou em um processo de desindustrialização, reprimarização da economia, ampliação da dependência externa e redução da capacidade do Estado de induzir o desenvolvimento. As privatizações, as reformas neoliberais (administrativa, previdenciária e trabalhista), a Lei de Responsabilidade Fiscal e a compressão permanente do gasto social operam como mecanismos institucionais de desmonte do estado, atacando direitos conquistados anteriormente e limitando a efetividade do pacto constitucional de 1988. Nesse sentido, o neoliberalismo não deve ser compreendido apenas como um conjunto de políticas econômicas, mas como um projeto político de reorganização do poder, que subordina a soberania econômica, o trabalho e as políticas públicas às exigências do capital financeiro.
Politicamente, o neoliberalismo foi se institucionalizando de forma gradual e cumulativa, transformando-se no paradigma dominante do jogo político brasileiro, independentemente da coloração partidária dos governos. Ao longo dos anos 1990 e 2000, suas diretrizes foram incorporadas às regras formais do Estado — por meio do modelo macroeconômico, da legislação fiscal, da autonomia operacional da política monetária e da reorganização do aparelho estatal — criando restrições estruturais duráveis que passaram a moldar o comportamento dos atores políticos. Nesse contexto, partidos e lideranças foram progressivamente se adaptando ao novo regime de incentivos, internalizando a lógica da estabilidade monetária, do equilíbrio fiscal e da credibilidade junto aos mercados como pré-condições da governabilidade.
A introdução do neoliberalismo promoveu o envelhecimento precoce da Nova República, ao esvaziar rapidamente a energia reformista — ainda que condicionada — liberada pelo processo de redemocratização e pelas expectativas sociais e políticas depositadas na Assembleia Constituinte de 1987–1988. A partir dos anos 1990, um amplo conjunto de Emendas Constitucionais, aliado a um processo de regulamentação conservadora dos dispositivos da Carta Magna, foi progressivamente desfigurando o sentido mais avançado e popular do texto constitucional, sobretudo no que diz respeito ao papel do Estado, à proteção social e aos direitos do trabalho.
O neoliberalismo envelhece precocemente a Nova República ao esvaziar sua energia reformista.
Paralelamente, a base social que sustentava o campo progressista entrou em declínio diante da “revolução conservadora neoliberal”, que reestruturou profundamente o capitalismo em escala mundial, promovendo a financeirização da economia, a abertura comercial assimétrica e a reconfiguração das cadeias produtivas globais. No plano interno, esse processo se traduziu em desindustrialização, desemprego estrutural e precarização das relações de trabalho, atingindo de maneira direta a classe operária moderna que havia protagonizado o ciclo de lutas do final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Assim, ao mesmo tempo em que se desvanecia os dispositivos sociais mais avançados da Constituição de 1988, enfraquecia-se também o sujeito capaz de pressionar por sua efetivação plena, produzindo um descompasso entre avanços formalmente inscritos e correlação de forças efetivamente existente na Nova República.
Apesar da ascensão do Partido dos Trabalhadores à Presidência da República (2003), a institucionalidade neoliberal já estava solidificada e a classe trabalhadora já havia perdido sua capacidade de pressão via mobilização, o que impôs limites concretos às opções de política econômica e social. Dessa forma, os governos petistas, alinhados à ordem da "nova republica", em parte por escolha e em parte por serem condicionados, tiveram que atuar no estreito espaço de manobra deixado pelo neoliberalismo. Isso exigiu a conciliação da expansão de políticas redistributivas e sociais com a manutenção dos pilares do regime macroeconômico herdado. Tal cenário demonstra que a disputa política na Nova República passou a se concentrar menos na superação dos desafios estruturais brasileiros e mais em quais níveis de acomodação eram viáveis dentro de seus limites institucionais e de correlação de forças na sociedade.
A Nova República ingressava em um estágio de maturidade precoce, no qual a unidade construída em torno do ideário democrático dos seus primeiros anos já havia se dissipado. A busca por soluções políticas mediadas para ampliação e garantia de direitos foi progressivamente substituída por um discurso tecnocrático e fatalista, ancorado na austeridade neoliberal como suposta racionalidade incontornável. A promessa de desenvolvimento e inclusão social cedeu lugar à primazia da estabilidade monetária, convertida em fim em si mesmo, enquanto a noção — ainda que falaciosa — de “responsabilidade fiscal” passou a operar como justificativa permanente para o adiamento das promessas constitucionais. Nesse processo, o projeto de bem-estar social inscrito na Constituição de 1988 foi sistematicamente frustrado. A política se torna abertamente cínica, e as pessoas percebem isso.
2.3 . A MORTE: A RUPTURA COM AS REGRAS DA COMPETIÇÃO DEMOCRÁTICA
A partir da década de 2010, a Nova República ingressa em sua fase de ocaso, marcada pela erosão acelerada de suas bases de legitimidade, pela ruptura das regras de convivência e competição entre os atores políticos e pela incapacidade do regime de processar conflitos crescentes dentro dos marcos institucionais que o sustentaram desde 1988. O esgotamento do ciclo de crescimento impulsionado pelo boom das commodities, a desaceleração econômica global pós-2008 e o estreitamento do espaço fiscal aprofundaram contradições já latentes, tornando visível o descompasso entre expectativas sociais, capacidade do Estado e limites impostos pelo modelo neoliberal consolidado nas duas décadas anteriores.
As Jornadas de Junho de 2013 expressaram contradições que já estavam latentes no interior da Nova República. Embora marcadas por forte heterogeneidade e por sentidos políticos frequentemente contraditórios, as mobilizações revelaram a incapacidade crescente do sistema político de representar, mediar e canalizar demandas sociais por meio de seus mecanismos institucionais tradicionais. Se, por um lado, é inegável que setores dessas manifestações foram instrumentalizados por interesses imperialistas, no esforço de produzir uma espécie de “revolução colorida” destinada a desgastar o governo petista e abrir caminho para o aprofundamento do saque sobre riquezas estratégicas brasileiras — em especial as reservas do pré-sal —, por outro, seria um erro analítico desconsiderar que ali também se expressavam reivindicações legítimas por participação política, serviços públicos de qualidade e justiça social. A importância das Jornadas reside justamente nessa ambivalência: elas evidenciam, ao mesmo tempo, a vitalidade residual da mobilização social e o esgotamento das formas institucionais que a Nova República oferecia para absorvê-la, acelerando o processo de crise do regime.
Esse processo se aprofunda nas eleições de 2014, quando Dilma Rousseff é reeleita por margem estreita sobre Aécio Neves (PSDB); o candidato derrotado rompe com as regras da Nova República, ao não reconhecer o resultado eleitoral, inaugurando uma estratégia sistemática de contestação da legitimidade do governo eleito. Esse gesto sinaliza o colapso do consenso mínimo entre os atores políticos centrais sobre as regras do jogo democrático, transformando a disputa eleitoral em uma luta existencial pelo controle do Estado.
Em 2014, a ruptura do reconhecimento eleitoral inaugura a contestação sistemática da legitimidade do governo.
O impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, um golpe parlamentar e midiático travestido de legalidade — representa a ruptura formal do pacto que havia garantido a estabilidade relativa do regime. Ao remover uma presidenta sem crime de responsabilidade comprovado, o sistema político substitui a mediação democrática por uma solução de força, abrindo precedente para a corrosão generalizada da legalidade constitucional. O governo subsequente, liderado pelo vice-presidente golpista Michel Temer, aprofunda esse movimento ao impor uma agenda neoliberal radicalizada, com destaque para o teto de gastos, reformas trabalhista e previdenciária, consolidando um regime de exceção econômica permanente incompatível com o espírito da Constituição de 1988.
A vitória eleitoral de Jair Bolsonaro (2018), oriundo de um partido periférico ao sistema tripartite que estruturou a Nova República (MDB, PSDB e PT), simboliza a implosão do sistema político estabelecido. Trata-se não apenas de uma alternância de poder, mas do surgimento de um projeto abertamente autoritário e hostil às instituições que sustentaram o regime desde a redemocratização. O fato de Bolsonaro chegar ao poder por meio de eleições não contradiz essa leitura; ao contrário, evidencia que o regime já havia perdido sua capacidade de produzir consensos, abrindo espaço para projetos demagógicos, personalistas e abertamente reacionários, um aspecto realmente novo desde a redemocratização.
A ascensão do bolsonarismo possui um caráter profundamente regressivo e antirregime, na medida em que se construiu como negação explícita da Nova República e dos avanços democráticos conquistados após 1988. Trata-se de um movimento reacionário porque não propõe uma superação das contradições do regime, mas um retorno simbólico e político ao autoritarismo do regime militar, relativizando a ditadura, legitimando a repressão e atacando direitos civis, políticos e sociais. Ao fazê-lo, o bolsonarismo mobiliza setores sociais descontentes que experimentaram perda relativa de status e expectativas: como por exemplo frações da classe média baixa afetadas pelo aprofundamento do neoliberalismo que reagiram à ascensão — ainda que limitada — de parcelas populares durante os governos petistas, percebida como ameaça a hierarquias sociais historicamente naturalizadas.
Esse ressentimento social foi catalisado pela conjuntura aberta pela Operação Lava Jato, que atuou como instrumento de desestabilização do regime político brasileiro, patrocinado pelo imperialismo estadunidense, contribuindo para a decomposição de setores estratégicos da economia nacional — como o complexo de infraestrutura ligado à Petrobras — e para a criminalização seletiva da política. Nesse processo, a condenação e prisão injusta de Luiz Inácio Lula da Silva, impedido de disputar as eleições, abriu espaço para a vitória de Jair Bolsonaro. A agenda bolsonarista se estruturou como um casamento entre autoritarismo e neoliberalismo radical, no qual a regressão de direitos, a violência política e o desmonte do Estado social passam a ser uma plataforma de governo. Nesse sentido, o bolsonarismo expressou um limite histórico: o neoliberalismo, dado ao seu impacto antipopular, já não consegue se reproduzir de forma ampliada como política de Estado em ambiente democrático, exigindo, para sua imposição, uma virada autoritária que corrói o próprio regime que o abrigou.
O período entre 2013 e 2018 revela que a Nova República deixou de operar como um sistema de compromissos mútuos, no qual os principais atores reconheciam as regras, aceitavam perdas temporárias e apostavam na continuidade do sistema. Progressivamente, o regime passou a funcionar a partir de quebras recorrentes de compromissos formais e institucionais, produzindo a erosão das normas que sustentavam o consenso mínimo entre os atores políticos e pela substituição do consentimento social por mecanismos de coerção institucional.
Nesse contexto, a estratégia dos atores desloca-se da ampliação de ganhos de longo prazo para estratégias defensivas de curto prazo, típicas de regimes em fase de colapso, no qual a sobrevivência política é o único objetivo real a ser perseguido. Não se trata, portanto, de uma crise conjuntural ou de mau funcionamento episódico, mas da exaustão estrutural de um arranjo histórico incapaz de resolver, ou pelo menos enfrentar satisfatoriamente, suas contradições — em especial a tensão entre democracia formal e neoliberalismo —, o que empurra o sistema para cenários cada vez mais instáveis e regressivos, característicos de processos de colapso do regime político.
A Nova República deixa de ser um sistema de compromissos mútuos e passa a operar por quebras recorrentes.
2.4 . INTERREGNO: INCERTEZAS DURAS DA CONJUNTURA BRASILEIRA
O Brasil atravessa o que podemos chamar de interregno histórico, no qual o regime político da Nova República entrou em colapso e um novo arranjo institucional capaz de produzir coordenação entre os atores políticos ainda não foi construído. Em termos gramscianos, quando há crise de período, a política tende a operar em registro mais agudo: o “velho” regime perde capacidade dirigente, o “novo” ainda não nasceu ou não consolidou formas estáveis de dominação, produzindo sintomas mórbidos (polarizações, instabilidade, excepcionalismos). A noção de interregno ajuda a explicar situações em que as regras formais (democráticas) sobrevivem de maneira residual, mas já não organizam plenamente o jogo de poder.
No interregno, o ‘velho’ perde capacidade dirigente e o ‘novo’ ainda não nasceu — surgem ‘sintomas mórbidos’.
Isso significa que o regime deixou de operar na dinâmica de uma democracia eleitoral competitiva — sustentado por regras reconhecidas, alternância aceita e compromissos próprios da ação política — e passou a funcionar na lógica do “tudo ou nada”, no qual os principais atores não compartilham expectativas sobre as regras da disputa nem sobre os limites da mesma.
Como dito anteriormente, em democracia liberais, a política se organiza como um jogo eleitoral repetido, no qual as forças políticas aceitam perdas momentâneas porque acreditam na continuidade do sistema. No interregno, essa expectativa se rompe. As eleições continuam ocorrendo, mas a aceitação dos resultados é condicionada; as instituições podem funcionar de alguma maneira, mas sua autoridade é permanentemente contestada; decisões judiciais são interpretadas como armas políticas; e o conflito deixa de ser administrado dentro das regras constitucionais para se deslocar para o terreno da medição de forças pura e simples. Isso caracteriza uma situação conjuntural instável no qual todos os atores agem defensivamente, priorizando ganhos de curto prazo e proteção contra riscos existenciais.
As eleições continuam, mas a aceitação dos resultados vira condicional.
A polarização política é sintoma dessa situação interregnal. Em termos estratégicos, quando os custos de perder o poder aumentam e os mecanismos de proteção institucional são frágeis, os atores tendem a radicalizar suas posições. A política transforma-se em um jogo de soma zero, no qual concessões são interpretadas como fraqueza e compromissos como risco. Esse ambiente reduz drasticamente a possibilidade de acordo transversal mínimo sobre as regras democráticas e dificulta a formação de maiorias estáveis, prolongando ainda mais a instabilidade do período.
Nesse cenário, o Partido dos Trabalhadores é o único ator remanescente da Nova República com capacidade real de coordenação política nacional. Mesmo operando em uma correlação de forças desfavorável, o PT preserva densidade organizativa, base social estruturada, uma hiper-liderança incontestável (Lula) capaz de garantir a coesão partidária e experiência institucional suficiente para articular coalizões e produzir governabilidade mínima. O PT é portanto o único jogador que ainda possui capital de coordenação — isto é, capacidade de sinalizar compromissos aceitáveis e induzir cooperação parcial entre outros partidos do campo democrático. Contudo, essa capacidade opera sob severas restrições, particularmente parlamentares, o que limita o alcance de qualquer estabilidade a curto prazo.
O interregno político brasileiro se agrava pelo ambiente internacional. A ordem mundial atravessa um período de transição para uma configuração multipolar, marcada pelo declínio relativo da hegemonia estadunidense e pela intensificação da competição entre grandes potências. O mundo também encontra-se instável, as normas multilaterais anteriormente consolidadas perdem força e disputas geopolíticas elevam os custos de posicionamento dos países periféricos, haja vista as recentes retaliações de Donald Trump por meio dos tarifaços ou incursões militares ilegais (como a ocorrida na Venezuela em janeiro de 2026). O Brasil, inserido de forma dependente na economia global, mal posicionado na cadeia mundial de produção de valor, e baixa coesão política interna, é ainda arrastado para esse ambiente conflituoso no qual, para além das boas declarações da Presidência da República, possui praticamente nenhuma governabilidade ou força dissuasória frente às ameaças externas.
A convergência das variáveis internas e externas mencionadas estressam as instituições, resultando em uma conjuntura de extrema sensibilidade. Assim, tanto manobras sutis dos atores políticos quanto eventos de menor importância (quando comparados a outros contextos) podem desencadear consequências políticas consideráveis. A falta de um consenso mínimo sobre as regras aumenta o risco de soluções oportunistas e encoraja atitudes aventureiras, inclusive a possibilidade de tentativas de golpe.
Na conjuntura de extrema sensibilidade, eventos menores podem desencadear consequências políticas consideráveis.
O interregno representa não só um período de crise, mas também uma etapa de transição entre diferentes regimes. Independentemente de nossas opiniões ou desejos em relação aos mesmos, essa fase é marcada por características como a baixa previsibilidade, a intensa polarização política e uma disputa aberta para estabelecer tanto as novas regras quanto a nova hierarquia do poder político.
O Brasil encontra-se nesse ponto. O desfecho é extremamente incerto, podemos dizer que dependerá da capacidade de reconstruir mecanismos de coordenação política que acomodam interesses de classes em favor de uma nova maioria política no país, e com isso compor um modelo de competição política e social minimamente estável e compartilhado entre os principais atores. A questão adicional a essa problemática está em avaliar se isoladamente, ou seja, apenas contando com a dinâmica política nacional, seria possível construir um novo regime político. O condicionamento externo estrutura a dinâmica nacional brasileira de maneira profunda, portanto, a probabilidade mais tangível é que as condições internacionais possam influenciar, de modo progressivo ou reacionário, o desfecho do interregno.

3. O ATUAL SISTEMA DE CONTRADIÇÕES
3.1 . A CONTRADIÇÃO PRINCIPAL NO PLANO MUNDIAL
A contradição geopolítica central na atualidade se manifesta no embate entre imperialismo vs. soberania nacional. Esta é considerada a contradição principal devido à sua capacidade de estruturar e expandir as relações de assimetria de poder no sistema interestatal. Através dela, o hegemon — o ator dominante, no caso os Estados Unidos — impõe, ou tenta impor, posições e funções específicas a cada nação, segundo seus próprios interesses. O aspecto principal da contradição principal3 é, portanto, o imperialismo. No estágio atual do desenvolvimento dessa contradição, o hegemon detém as condições, de diversas naturezas, para condicionar ou eliminar projetos soberanos. Por outro lado, o aspecto secundário, ou o pólo mais fraco da contradição, os projetos soberanos, busca de objetivos nacionais próprios mantendo suas singularidades dentro do cenário geopolítico.
3 MAO TSÉ-TUNG. Sobre a contradição. In: MAO TSÉ-TUNG. Obras escolhidas. v. 1. São Paulo: Alfa-Ômega, 1979.
Para uma análise correta dessa situação, é fundamental considerar a historicidade da contradição. Isso implica compreender que a contradição passa por diferentes "estados"4, que podem, dependendo da natureza da contradição, durar anos, décadas ou séculos:
4 Idem.
LATENTE
O conflito existe, mas ainda não está completamente formado.
MANIFESTO
A contradição deixa de ser apenas uma tendência e se torna um fator reconhecível no movimento do processo.
INTENSIFICAÇÃO (OU AGUDIZAÇÃO DA LUTA ENTRE OS CONTRÁRIOS)
Neste estado, surgem de modo acentuado alianças, polarizações, guerras e disputas pela direção.
ALTERAÇÃO DO STATUS NA CORRELAÇÃO DE FORÇAS
Trata-se da inversão do aspecto principal, neste caso o polo antes dominante é deslocado para uma posição na qual não dirige mais o processo.
Neste último estado, a contradição pode mudar de forma ou caminhar para um estado de resolução relativa, na qual surge um novo regime de contradições.
Tal método é útil para compreender com maior nitidez tanto a transição para uma ordem mundial multipolar, quanto o interregno brasileiro, que se inscreve como uma contradição derivada, inscrita no âmbito nacional. A perda relativa da hegemonia estadunidense não se manifesta como colapso de poder, mas como alteração da correlação de forças internacionais diante da ascensão econômica e tecnológica de novos polos de poder. Podemos dizer que a contradição geopolítica principal alcançou o estado de intensificação ou agudização dos contrários. Não ocorreu mudança do aspecto principal, mas o aspecto secundário (projetos soberanos como China, Rússia, Irã, entre outros), ainda que mais fraco, já se manifesta como uma ameaça ao dominante.
Nesta abordagem, podemos indicar que, no momento atual, o sistema internacional deixa de operar sob um padrão hegemônico, quase que exclusivamente estadunidense, e passa a se estruturar como uma competição aberta e acirrada entre grandes potências, no qual disputas por normas regulatórias, cadeias globais de valor, padrões tecnológicos e controle de fluxos financeiros tornam-se tão relevantes quanto conflitos militares diretos. A crescente competição pelo controle de recursos críticos por parte das superpotências exerce uma pressão brutal sobre os países dependentes, limitando cada vez mais a margem de manobra para a celebração de acordos minimamente razoáveis para os países do Sul Global.
Nesse ambiente, a soberania não pode ser entendida como uma mera categoria jurídica como feita pelos defensores da globalização, mas como uma aspiração concreta e particular de um conjunto mais amplo de nações: significa que a viabilidade nacional dos países dependentes, inclusive em um contexto de globalização, requer que os mesmos consigam definir, em alguma dimensão, a forma como irão administrar seus recursos, ou serão empurrados a aceitar a condição de vassalos de Washington.
Soberania é capacidade concreta — sem ela, a tendência é a vassalagem.
O desafio primordial é que a acumulação de forças suficiente para a constituição de soberania não é um processo linear ou isento de outras séries de contradições que a condicionam. O Brasil vive intensamente essa situação, a soberania, no nosso contexto, depende não apenas do controle formal do território, mas da capacidade de formular políticas industriais, econômicas, energéticas e tecnológicas que evitem a inserção global subordinada, ou seja, como mero exportador de commodities. Isso significa não apenas enfrentar pressões externas, mas um enfrentamento profundo com setores internos, privilegiados por sua relação de associação aos interesses estrangeiros.
3.2 . O LUGAR NO BRASIL NO ROL DOS INTERESSES GEOPOLÍTICOS
O Brasil ocupa posição decisiva nesse cenário em razão de sua dotação excepcional de recursos críticos. O país concentra cerca de 12% da água doce superficial do planeta (com estoque substanciais no aquífero Guarani) e detém vastas reservas de petróleo no pré-sal — responsável por mais de 70% da produção nacional e que transformou o petróleo bruto no principal item da pauta exportadora em 2024 e 2025. Soma-se a isso a presença de reservas relevantes de minerais críticos associados à transição energética — como lítio, nióbio, cobalto, terras raras e grafite —, além de biodiversidade única e capacidade agrícola de grande escala. Em termos geoeconômicos, o Brasil configura-se como um concentrador de ativos estratégicos de primeira ordem, centrais para segurança energética, hídrica, alimentar e tecnológica.
Essa posição transforma o país em peça-chave em múltiplos jogos simultâneos em curso: o jogo energético, o jogo mineral/tecnológico, o jogo alimentar, o jogo bélico e o jogo regulatório. As grandes potências buscam garantir acesso privilegiado a esses recursos por meio de mecanismos que vão além da coerção militar clássica, operando através de condicionantes financeiros, acordos comerciais assimétricos, pressões regulatórias e influência institucional ilegal (como as guerras híbridas, lawfare, etc.).
Vejamos o significado do Acordo União Europeia–Mercosul que entrou em vigor em janeiro de 2026 para exemplificar a questão. Sob a retórica da liberalização comercial associada a compromissos ambientais e “verdes”, o tratado tende a consolidar assimetrias estruturais ao reforçar o poder normativo europeu sobre temas sensíveis — como padrões sanitários, rastreabilidade ambiental, uso do solo e desmatamento — sem oferecer contrapartidas equivalentes em transferência tecnológica, financiamento produtivo ou agregação de valor industrial no Mercosul. Trata-se de uma relação assimétrica na qual a União Europeia busca fixar regras favoráveis a seus setores industriais e tecnológicos, enquanto o Brasil, e com ele todo o Mercosul, corre o risco de cristalizar sua posição como exportador de commodities agrícolas, minerais e energia. O acordo não é apenas um instrumento comercial, mas parte de uma disputa geopolítica mais ampla pela definição das regras de inserção internacional do país, afetando diretamente sua capacidade de construir um projeto de desenvolvimento soberano.
Do lado europeu, o Acordo representa, no momento atual, uma estratégia explícita de recomposição de sua posição econômica e geopolítica em meio à disputa com a Rússia e à redefinição de suas relações com Washington, depois de mais de duas décadas de negociação, somente agora, quanto a situação européia é crítica, que o acordo é de fato assinado, não há coincidência nisso.
No plano interno brasileiro, embora setores primário-exportadores — especialmente o agronegócio — celebrem a ampliação de acesso ao mercado europeu; sob uma perspectiva mais ampla o Acordo tende a aprofundar a reprimarização da economia, reforçando um padrão de inserção externa baseado na oferta de commodities e afastando o país de suas necessidades estruturais de industrialização, inovação tecnológica e desenvolvimento soberano.
Iniciativas com a atuação nos BRICS ampliados e a organização da COP 30 colocam o Brasil em posição de potencial articulador do Sul Global e de partícipe de uma agenda de reforma da governança internacional. Contudo, essas oportunidades convivem com pressões para alinhamentos automáticos ao imperialismo estadunidense5. O sistema internacional funciona de maneira a produzir nos países de desenvolvimento intermediários custos crescentes para manter alguma autonomia estratégica, o Brasil é prova disso, sofre e sofrerá pressões justamente por estar nesta posição.
5 Como estabelecido no documento da Nova Estratégia de Segurança Nacional (2025) lançada pelo governo Trump, especialmente em temas sensíveis como sanções, tecnologia digital, cadeias energéticas, regimes financeiros e adoção do dólar como moeda de referência das transações comerciais.
O ponto crucial agora, ao definir a contradição principal da geopolítica, é realizar uma avaliação prática sobre quais ações, de qualquer natureza, aproximam o Brasil de suas necessidades de soberania ou o afastam delas. A questão não é baseada em preferências ideológicas sobre parcerias internacionais, mas sim em quais dessas parcerias são verdadeiramente eficazes para construir a viabilidade e a autonomia nacional.
3.3 . RELAÇÃO ENTRE A CONTRADIÇÃO PRINCIPALDA GEOPOLÍTICA E O INTERREGNO BRASILEIRO
O interregno brasileiro é uma situação que impõe uma camada a mais de complexidade diante do que foi dito até então. A fragilidade interna — marcada por polarização, baixa coordenação política e disputa permanente pelas regras do jogo nacional — reduz a capacidade do Estado Brasileiro de operar como ator coeso no tabuleiro internacional. Em disputas geopolíticas, atores fragmentados internamente (como o Brasil) tendem a aceitar acordos rebaixados por falta de coesão, estratégia e coordenação. Assim, a instabilidade nacional amplia a vulnerabilidade externa, enquanto a pressão geopolítica internacional retroalimenta o círculo vicioso das divisões internas, aprofundando a instabilidade presente no interregno.
A instabilidade interna amplia a vulnerabilidade externa — e a pressão externa retroalimenta as divisões internas.
No contexto do interregno, a disputa entre imperialismo e soberania assume importância ainda mais crítica do que teve durante a Nova República. Isso porque as exigências de acumulação financeira e os interesses de dominação se intensificaram no atual estado de desenvolvimento da contradição, ou o estado de “agudização da luta dos contrários”, mencionada anteriormente.
Em outras palavras, o país estará sendo permanentemente tensionado à submissão ao sistema de vassalagem projetado pelos EUA. O grau de subordinação ou autonomia nacional alcançado diante deste processo, como é possível deduzir, irá influenciar a correlação de forças inicial de um novo regime político, cujo caráter ainda é incerto6.
6 Seria uma leitura razoavelmente simplória, indicar que estamos em uma situação de” tudo ou nada”, do tipo “ou o país será totalmente soberano ou completamente subordinado”, a realidade é sempre movimento e possui nuances que não são triviais para a análise. O que é possível defender, com alguma base material, é que a correlação de forças que abre caminho para estabilização dinâmica de um novo regime estará sendo influenciada pela contradição principal que foi exposta.
A tese que apresentamos pode ser sistematizada da seguinte forma: em um cenário de colapso da Nova República e de reconfiguração da ordem mundial, a disputa em torno da dicotomia “soberania-submissão” será um dos conflitos, abertos ou velados, que estarão gestando os atores e regras do jogo de um novo regime político no país. A dicotomia “sobredeterminará”7 os campos políticos, sistemas de aliança internas e o posicionamento internacional, bem como terá impacto nas constituição de regras formais e informais de competição pelo poder político do Estado brasileiro.
7 Aqui recorremos a Louis Althusser, para o qual a sobredeterminação designa o fato de que uma contradição histórica nunca atua “em estado puro”: ela é sempre atravessada por outras contradições e determinações (políticas, ideológicas, nacionais, internacionais, institucionais etc.) que, em uma conjuntura concreta, se acumulam, se combinam e deslocam a forma e a intensidade do conflito. A causalidade histórica é complexa: as crises, rupturas ou soluções intermediárias de cada conflito dependem da configuração específica dessas múltiplas determinações, que conferem à contradição principal uma expressão singular em cada momento. Referência: ALTHUSSER, Louis. La revolución teórica de Marx (Pour Marx). Buenos Aires: Siglo Vientiuno,1973. (cap. “Contradición y sobredeterminación”).
Ao mesmo tempo, e de maneira contraditória, essa situação de pressão externa e disputas internas pode, em tese, ser utilizada como oportunidade para o surgimento de um ator (ou campo político) nacional capaz de transformar as demandas e desafios brasileiros do interregno em uma síntese política crítica (ideológica-política-programática), capaz de forjar - a partir das massas populares em alianças com outras camadas sociais - um sujeito nacional novo, capaz de enfrentar a falta de coesão e coordenação e com isso disputar o sentido de um novo regime e de uma nova forma de inserção do país no mundo.
3.4 . DEMOCRACIA VS. AUTORITARISMO: A CONTRADIÇÃO PRINCIPAL DO INTERREGNO
A contradição central (interna) que rege o período de interregno brasileiro, como vimos, é sobredeterminada pela contradição geopolítica “soberania-submissão” (externa), no entanto, em um nível mais concreto de complexidade, ou seja, está combinada com outras contradições presentes na formação social brasileira. Dentro de um sistema de contradições que moldam a arquitetura do tempo presente, a disputa no nível nacional possui um registro próprio, uma particularidade que deve ser considerada, sob o risco de generalizações, próprias de leituras subjetivistas8.
8 A contradição principal em nível geopolítico, que é a oposição entre imperialismo e soberania (ou entre soberania e submissão), é marcada pela perda relativa de hegemonia dos Estados Unidos. Já a contradição principal da conjuntura política brasileira, embora relacionada ao contexto externo, tem características e um período de vigência distintos. Sua abrangência é nacional e ela está imersa nas particularidades da formação social brasileira, sendo identificada no interregno que sucedeu o fim da Nova República. Portanto, o uso e a articulação dos conceitos devem ser ajustados ao nível de análise que lhe é correspondente, o que demonstra a interação dialética do geral com o particular e, novamente, com o geral.
A tese que defendemos é que no período de interregno vigente (de 2014 em diante), a contradição principal no âmbito nacional brasileiro se encontra no conflito entre democracia e autoritarismo.
Existem diversas contradições relevantes além daquela que aqui se toma como principal.
No plano socioambiental, destaca-se um conjunto de contradições críticas e de alta complexidade envolvendo o modelo agropecuário e a segurança alimentar, a matriz energética, o aquecimento global e as mudanças climáticas, a extração mineral, a segurança hídrica e a preservação dos territórios de povos tradicionais.
No plano do desenvolvimento, sobressaem impasses como a desindustrialização, a soberania digital, a baixa produtividade do trabalho, a reprimarização, o patamar da taxa de juros, as condições de financiamento público para a atividade produtiva e a crescente financeirização.
No plano social, observam-se contradições que atravessam segurança e direitos humanos, gentrificação urbana e moradia, trabalho plataformizado, financiamento e sustentabilidade de políticas públicas, seguridade social e previdência, saúde, a inversão da pirâmide demográfica, políticas setoriais e a questão educacional, entre outras.
A esse quadro somam-se contradições no campo ideológico e religioso, cujos efeitos incidem diretamente sobre a disputa pelo poder político e sobre a capacidade de construção de consensos.
Consideradas isoladamente, essas contradições são pertinentes e exigem análise própria; para uma leitura de conjuntura, contudo, o problema decisivo é compreender como elas se articulam numa totalidade concreta, por meio de mediações econômicas, políticas, institucionais e ideológicas, e como são reorganizadas pela correlação de forças. Em termos metodológicos, as agendas de luta podem ser entendidas como a tradução política de relações contraditórias: expressam aspectos particulares de contradições mais gerais, seja a contradição estrutural (do modo de produção) entre capital e trabalho, seja, em nível ainda mais abrangente, a tensão entre a reprodução social e os limites ecológicos — isto é, a relação entre sociedade/humanidade e natureza.
O objetivo desta análise é, portanto, apreender o comportamento do sistema de contradições no período que qualificamos como interregno (um intervalo de transição de regime), para então compreender de que modo, no momento presente, a contradição principal e seu aspecto dirigente imprimem sentido e ritmo ao movimento das demais contradições9.
9 A contradição principal funciona como eixo de hierarquização e de reinterpretação das contradições secundárias, porque define o terreno e o método político-institucional no qual elas podem ser formuladas, disputadas e transformadas em ações de natureza pública. Em termos concretos, o conjunto de contradições secundárias deixam de operar apenas como problemas setoriais e passam a ser polarizados segundo dois vetores: sob um horizonte democrático, tendem a ser tratados por meio de mediações públicas e participação, garantia de direitos, regulação estatal que podem gerar efeitos positivos para o bem-estar coletivo; sob um horizonte autoritário, são reconfigurados visando a supressão de dissenso e captura das instituições por aparelhos de força e por interesses privados dominantes.
Assim, a contradição principal imprime sentido às demais ao estabelecer quais conflitos podem aparecer como legítimos, quais sujeitos podem reivindicar direitos e reconhecimento, quais instrumentos de coordenação estatal permanecem disponíveis e, sobretudo, quais soluções são consideradas “viáveis”: no limite, ela decide se as contradições secundárias serão processadas como disputa política e social regulada — com possibilidade de reformas e recomposições — ou como inimigos a serem neutralizados, deslocando a resolução dos conflitos do plano da política para o plano da força.
A contradição principal decide: disputa regulada ou ‘inimigos’ — política ou força.
Neste ponto cabe realizar algumas observações adicionais para melhor compreender o status que atribuímos à tensão democracia vs. autoritarismo.
Em PRIMEIRO LUGAR, ao indicar essa contradição como principal, não partimos de um posicionamento moral ou institucional sobre os aspectos da contradição. O que defendemos é que na disputa política dentro do atual interregno histórico, a extrema-direita, defensora de uma resposta autoritária frente ao colapso do regime possui uma natureza reacionária, ou seja, ataca a Nova República pelo o que ela teve de mais próximo do paradigma de Bem-Estar Social. Condena o regime não pelo condicionamento neoliberal, que por sinal defendem, mas por políticas que a aproximam de demandas sociais e ampliação de direitos civis.
Em SEGUNDO LUGAR, o sistema democrático liberal da Nova República foi duplamente limitado, seja pela condicionante da “transição negociada”, seja pela institucionalização posterior das políticas neoliberais. Porém, é também necessário afirmar que o Partido dos Trabalhadores, que exerceu a função de liderança das demandas distributivas no arranjo “novorepublicano”, foi o ator mais bem sucedido no jogo eleitoral para o executivo nacional. A incapacidade do PSDB de manter seu programa neoliberal explícito a longo prazo, resultando em sua marginalização política, sugere que a esquerda realmente existente (sob a liderança do PT), apesar de suas limitações, obteve mais sucesso em operar dentro da democracia eleitoral do que os outros grupos políticos. A setores da esquerda, via de regra, sempre denunciaram, com razão, os defeitos do regime democrático, porém é evidente que foi por meio dele que alcançou melhores resultados em termos de acúmulo de poder efetivo, ainda que não tenham conquistado avanços significativos na democratização do poder real10.
10 Há o argumento que indica que a esquerda chegou ao governo e não ao poder. A questão é que o poder é um complexo de relações, e não significa que seu exercício está isento de condicionamentos. Para análises políticas, diferenciar poder real (estrutural) e poder efetivo (formal) oferece um ganho analítico, na medida que capta aspectos mais sutis do que acontece na realidade. Por outro lado aponta que, em determinadas circunstâncias, as classes proprietárias, mesmo dotadas de poder real, perdem o controle do poder efetivo de estado, como o que aconteceu em diversos países da América Latina. A transformação do poder efetivo em recurso para a democratização do poder real, até o momento, se apresenta como a estratégia mais difícil de ser executada.
Em TERCEIRO LUGAR, é adequado considerar como os distintos segmentos sociais percebem o regime democrático. A pesquisa de opinião pública da Ágora Consultores11, realizada em novembro de 2025 a pedido do ICL, ao mapear valores e prioridades da sociedade brasileira, ajuda a qualificar essa leitura ao identificar seis “comunidades de sentido” com orientações políticas e morais relativamente estáveis.
11 ÁGORA CONSULTORES. A verdade sobre como pensam os brasileiros: pesquisa de opinião pública. [S.l.]: Ágora Consultores, nov. 2025.
Entre os setores progressistas — especialmente a Esquerda Urbana Progressista (15%), de alta escolaridade e renda média/alta concentrada nos grandes centros, e a Esquerda Popular Solidária (11%), predominantemente feminina e de menor renda, orientada por cuidado, solidariedade e inclusão — a democracia aparece como condição prática para a defesa de direitos, para a efetividade de políticas públicas (saúde, educação, assistência) e para a ampliação de reconhecimento social (direitos humanos, diversidade). Nesse horizonte cognitivo, o PT tende a funcionar como principal referência eleitoral da esquerda, e a democracia é percebida como o melhor arranjo político disponível; por isso, as diferenças entre “democracia liberal” e “democracia popular”, bem como distinções internas à própria esquerda, permanecem em grande medida circunscritas à militância mais engajada e a setores acadêmicos, sem se converterem, em regra, em preocupações do cotidiano da maioria. De modo geral, prevalece o desejo de unidade eleitoral das esquerdas e a avaliação de que, sem democracia, a vida concreta tende a piorar — seja por perda de direitos, seja por retração de políticas públicas e proteções sociais.
Na outra ponta, a base social da extrema-direita — cujo núcleo mais numeroso é a Direita de Ordem e Autoridade (30%), majoritariamente bolsonarista e crítica ao governo Lula — mobiliza uma gramática distinta, embora também simplificadora. Aqui, a democracia é frequentemente interpretada como vetor de degradação social porque estaria associada à permissividade, à indisciplina e ao atendimento de demandas de grupos historicamente marginalizados; a centralidade da segurança pública, da disciplina e do combate à corrupção organiza essa visão, acompanhada por uma concepção punitivista radical (“punir 10 para garantir a punição de 9 culpados”). Neste enquadramento, não há interesse em distinguir democracia liberal de democracia popular, nem em reconhecer pluralidade no campo progressista: as diferentes correntes de esquerda são condensadas no rótulo indiferenciado de “socialistas” ou “comunistas”. A consequência é uma leitura segundo a qual a própria institucionalidade democrática seria, em si, “obra da esquerda” — impressão alimentada pela experiência imediata de sucessos eleitorais repetidos do PT ao longo da Nova República — e, portanto, um mecanismo que permitiria às esquerdas manterem-se indefinidamente no poder. Nessa lógica reacionária, que se pretende realista e moralizadora, a ruptura autoritária aparece como solução plausível: se a democracia é o terreno supostamente viciado onde a esquerda se reproduz, a saída seria o golpe e a instalação de um regime de força, frequentemente idealizado à imagem do regime militar.
Entre esses polos, a pesquisa também evidencia segmentos cuja relação com a democracia tende a ser mais ambivalente e contingente, o que ajuda a explicar oscilações do clima político. O Centro em Dúvida e Contradição (26%), “coração oscilante” sem identidade ideológica forte, combina frustrações e dúvidas, misturando demanda por segurança com expectativa por políticas públicas eficazes, sem aderir automaticamente a um dos extremos; e os Populares por Proteção e Ordem (13%), de baixa renda e capazes de oscilar entre Lula e Bolsonaro, expressam de maneira concentrada uma tensão central: desejam proteção social (auxílios, emprego) ao mesmo tempo em que defendem valores de ordem, disciplina e controle rígido do crime.
Por fim, a Direita Liberal Crítica (5%), de perfil mais elitizado e urbano, crítica o governo Lula mas não necessariamente é alinhada ao “núcleo duro” bolsonarista, combina liberalismo econômico (redução do Estado, responsabilidade individual) com conservadorismo moderado, podendo tanto operar como freio a aventuras abertamente golpistas quanto, em certos contextos, convergir com agendas de endurecimento institucional.
Tomadas em conjunto, essas camadas sugerem que a disputa sobre a democracia no Brasil não é apenas uma divergência abstrata de valores: ela se enraíza em diferentes experiências sociais e expectativas sobre segurança, punição, proteção estatal, reconhecimento e governabilidade — o que é fundamental para a análise da contradição principal, proposta aqui.
Este terceiro aspecto indica que o antagonismo político democracia versus autoritarismo é uma contradição no seio do povo, no entanto, não resume completamente as posições políticas de todo o conjunto social. A questão fundamental é que setores de massas intermediários não possuem uma expressão política organizada que os represente eleitoralmente, não possuem um projeto articulado. Assim, uma “terceira via” política a curto prazo é pouco provável, mesmo que algumas agremiações eleitorais possam defender essa estratégia, como é o caso do PSD de Gilberto Kassab12.
12 A aposta de Kassab parece elevar o peso partidário do PSD diante das divisões internas dentro da direita e extrema-direita, acaba sendo um partido que absorve o excesso de lideranças direitistas, que pelas características personalistas e familiares do bolsonarismo, sempre serão secundarizadas, como é o caso de liderança como Caiado (GO), Ratinho Jr. (PR) e Leite (RS). Kassab entende, melhor que ninguém, que o espaço para a disputa presidencial neste momento é reduzido, mas aposta na ampliação do seu peso parlamentar a longo prazo, o que pode transformá-lo em um condicionador da governabilidade.
A síntese destas observações pode ser feita da seguinte forma: identificação da contradição principal nacional (democracia vs. autoritarismo) não é uma escolha política, mas o resultado da análise concreta do período. Os atores-chave de cada polo da contradição, o PT e a extrema-direita (sob liderança da família Bolsonaro), defendem agendas antagônicas, o petismo se identifica com a democracia e o bolsonarismo com o autoritarismo. Por fim, essa diferenciação não está circunscrita à esfera política, ela tem bases sociais bastante sólidas, portanto é um fenômeno de massas.
Agora, cabe desenvolver um pouco mais a origem e os estados dessa contradição, para podermos procurar identificar tendências e criar projeções ou cenários.

3.4.1 . O polo autoritário da contradição e a família Bolsonaro
Em primeiro lugar é necessário qualificar melhor o que entendemos como autoritarismo na análise. O autoritarismo a que nos referimos não precisa assumir a forma clássica de uma ditadura militar. Trata-se, antes, de uma reconfiguração do Estado e do regime em que o dissenso social deixa de ser reconhecido como componente legítimo da disputa por direitos e passa a ser administrado como problema policial, penal e judicial. Esse tipo de arranjo pode preservar eleições periódicas, mas degradar a substância democrática ao esvaziar os canais de mediação (partidos enraizados, sindicatos, conselhos, negociação coletiva, esfera pública plural) e ao restringir, na prática, liberdades e direitos por meio de coerção seletiva. Nessa linha, a noção de autoritarismo competitivo13 ajuda a captar regimes em que há competição eleitoral, porém com assimetrias estruturais — captura de instituições, perseguição judicial, controle informacional e intimidação — que tornam a alternância cada vez menos efetiva.
13 Autoritarismo competitivo é um tipo de regime híbrido no qual instituições formais da democracia — sobretudo eleições periódicas e algum pluralismo partidário — continuam existindo e são arenas reais de disputa, mas a competição ocorre sob assimetrias sistemáticas criadas pelos incumbentes. Em vez de abolir o processo eleitoral, o governo inclina o campo de jogo por meio do controle ou captura de instituições-chave (Judiciário, órgãos de controle, forças de segurança), do uso seletivo do aparato estatal contra opositores (perseguições administrativas e judiciais, intimidação, criminalização), do acesso desigual a recursos e mídia e da erosão gradual de freios e contrapesos. Assim, a oposição pode disputar e até vencer em certos momentos, mas enfrenta barreiras estruturais que reduzem a efetividade da alternância e degradam direitos e garantias. O conceito foi sistematizado para explicar regimes pós-Guerra Fria que não se enquadram nem como democracias consolidadas nem como ditaduras clássicas. Referência: LEVITSKY, Steven; WAY, Lucan A. Competitive authoritarianism: hybrid regimes after the Cold War. Cambridge: Cambridge University Press, 2010.
No caso contemporâneo, esse autoritarismo opera com frequência em chave neoliberal, isto é, como uma forma de “blindagem” das decisões econômicas centrais contra a soberania popular. A austeridade aparece como única alternativa, legitimada por um discurso pseudo-técnico, convertendo escolhas distributivas em supostas necessidades neutras; é o pode ser descrito como autoritarismo neoliberal, no qual a democracia é mantida formalmente, mas subordinada a imperativos de mercado e à disciplina fiscal-financeira. Ao mesmo tempo, esse regime tende a combinar a desdemocratização econômica com a punição social: intensifica-se a repressão policial nas periferias e sobre as frações mais exploradas da classe trabalhadora sob a gramática da “segurança pública”, aproximando-se do que Wacquant (2009) interpreta como braço penal do neoliberalismo14. Em paralelo, enfraquecem-se organizações populares e sindicais por meio de reformas e dispositivos institucionais que corroem sua capacidade de representar interesses coletivos; o Judiciário pode adquirir perfil ainda mais regressivo na proteção de direitos fundamentais, convertendo conflitos sociais em litígios assimétricos e, por vezes, em mecanismos de exceção legal15, o que Poulantzas (1980) indica como fenômeno derivado do “âmago das relações de produção e da divisão social do trabalho capitalistas” (POULANTZAS, 1980, p.238).
14 WACQUANT, Loïc. Punishing the poor: the neoliberal government of social insecurity. Durham: Duke University Press, 2009.
15 POULANTZAS, Nicos. O estado, o poder, o socialismo. Rio de Janeiro: Graal, 1980.
Em países periféricos, esse autoritarismo é ainda sobredeterminado pela dependência: ele funciona como instrumento para manter padrões de inserção subordinada e proteger interesses das classes proprietárias — com destaque para o capital financeiro — contra pressões distributivas. Assim, a forma autoritária não é apenas “cultural” ou “moral”; ela é um modo de governar a crise, controlando coercitivamente conflitos distributivos e bloqueando, sem negociação substantiva, demandas por soberania, direitos e desenvolvimento, podendo deslizar para formas abertas de tutela externa e “vassalagem” geopolítica, como tratado anteriormente.
A essa arquitetura do autoritarismo neoliberal ou autoritarismo competitivo soma-se, hoje, uma camada decisiva de governo pela desinformação: o negacionismo (científico, histórico e sanitário) não opera apenas como “erro cognitivo”, mas como técnica política que dissolve padrões comuns de verdade, enfraquece a deliberação pública e torna mais fácil tratar conflitos distributivos como “questões de ordem”. Esse processo é potencializado pelas big techs e pelas plataformas digitais, cuja lógica de negócios — extração massiva de dados, personalização algorítmica e maximização de engajamento — induz comportamentos, segmenta públicos e favorece conteúdos polarizadores, conspiratórios e afetivamente mobilizadores16.
16 Sobre o papel das big techs importa a análise de TUFEKCI, Zeynep. Twitter and tear gas: the power and fragility of networked protest. New Haven: Yale University Press, 2017. e ZUBOFF, Shoshana. The age of surveillance capitalism: the fight for a human future at the new frontier of power. New York: PublicAffairs, 2019.
O resultado é antidemocrático porque desloca a formação de opinião de arenas públicas verificáveis para ecossistemas opacos, nos quais infraestruturas privadas passam a exercer poder de agenda, moderação e amplificação sem controle social, convertendo a soberania popular em alvo de microdirecionamento e manipulação informacional. Ao mesmo tempo, o extremismo religioso oferece gramáticas de guerra cultural e espiritual (pânico moral, inimigos internos, “salvação” pela autoridade) que se encaixam perfeitamente na economia da atenção: ele fornece identidade, disciplina e justificação moral para políticas punitivas e para a erosão de direitos, funcionando como ponte entre precariedade material e adesão autoritária.
Nessa convergência, empresas de tecnologia e processamento de dados operam como atores de poder paraestatal: não apenas vendem serviços, mas moldam o terreno onde a política acontece, com incentivos estruturais para ampliar conflito e dependência — uma forma de autoritarismo privatizado que captura a esfera pública ao mesmo tempo em que fragiliza instituições de mediação democrática.
Empresas de tecnologia e processamento de dados operam como atores de poder paraestatal: não apenas vendem serviços, mas moldam o terreno onde a política acontece.
Nestas condições o poder político, que em stricto sensu, é monopólio estatal, passa a ser compartilhado de maneira direta com atores não-estatais, criando um esvaziamento, não apenas substantivo mas também formal da esfera estatal. Essa imbricação orgânica entre grandes empresas e núcleo dirigente estatal não é nova, aconteceu durante o Terceiro Reich da Alemanha Nazista, o que difere é a base tecnológica para a manifestação dessa relação.
A trajetória recente de Elon Musk ilustra, de maneira exemplar, a transformação estrutural: onde atores privados transnacionais acumulam capacidades antes tipicamente estatais — financiamento político em escala massiva, controle de infraestruturas de comunicação e poder de agenda sobre a esfera pública. No plano interno dos EUA, Musk deixou de ser apenas um doador eventual para se converter em operador político orgânico, combinando poder econômico, poder tecnológico e poder comunicacional: análises descrevem sua virada para a direita em 2024, seu apoio a Trump e, em 2025, a tentativa de testar e organizar uma força própria (“America Party”) por meio de enquetes e mobilização na plataforma X, como estratégia de deslocamento do eixo de mediação da política para o seu ecossistema privado de comunicação. Essa configuração é intrinsecamente antidemocrática não porque elimina eleições, mas porque altera a estrutura da deliberação pública: a capacidade de um indivíduo controlar simultaneamente recursos para influenciar eleições e a infraestrutura de formação de opinião, muito superiores ao jornalismo tradicional, intensifica assimetrias e fragiliza controles republicanos, aproximando-se das dinâmicas de degradação institucional típicas de contextos de autoritarismo competitivo (inclinação do “campo de jogo” sem abolir formalmente a competição).
No plano externo, Musk aparece como ator geopolítico de facto17 ao controlar infraestruturas críticas que condicionam decisões soberanas e, em casos-limite, o próprio resultado de operações militares. No caso da Ucrânia, investigações jornalísticas relataram episódios em que decisões unilaterais relativas ao Starlink produziram apagões de comunicação em zonas estratégicas, afetando coordenação de tropas, uso de drones e operações de artilharia — evidenciando como a privatização de infraestruturas de conectividade pode transferir para um agente não eleito capacidade de interferência em teatro de guerra. Esse episódio pode indicar uma tendência em direção ao aprofundamento de “blindagens” decisórias, ou quando um ator não estatal reúne capacidade de impor o poder de veto sobre decisões de ordem estatal. Os serviços essenciais (conectividade, nuvem, satélites, plataformas) passam a ser controlados por poucos conglomerados, a soberania estatal tende a ser recodificada como “dependência operacional”, e a política externa pode tornar-se refém de contratos, reputação empresarial e preferências ideológicas de proprietários.
17 Em julho de 2020, no contexto de uma discussão no então Twitter sobre a derrubada de Evo Morales na Bolívia e a disputa em torno do lítio (recurso estratégico para baterias), Elon Musk respondeu a um usuário que mencionava um “golpe” articulado para favorecer interesses corporativos com a frase: “We will coup whoever we want! Deal with it” (“Vamos dar golpe em quem quisermos. Lidem com isso”), posteriormente apagada, mas amplamente reproduzida. Evo Morales reagiu interpretando o episódio como evidência de que o golpe de 2019 teria relação com o controle do lítio boliviano, num cenário em que seu governo buscava nacionalizar e agregar valor ao recurso. Ainda que Musk tenha relativizado depois, o episódio ilustra a naturalização, por setores do capitalismo tecnológico, da ideia de que interesses privados podem influenciar mudanças de regime para assegurar acesso a recursos estratégicos.
O caso Musk ajuda a concretizar o nexo entre negacionismo, big techs e extremismo: a mesma infraestrutura que permite mobilização política direta também incentiva polarização e “guerra cultural”, porque o modelo de negócios premia engajamento e conflito, como na plataforma X. A plataforma converte-se de maneira explícita em aparelho privado de hegemonia, capaz de amplificar campanhas, atacar instituições, contestar ordens judiciais e enquadrar regulações nacionais como perseguição política18 — dinâmica que aparece recorrentemente nas controvérsias envolvendo moderação de conteúdo e enfrentamentos com reguladores. Quando esse poder comunicacional se articula ao poder econômico (financiamento, contratos públicos, infraestrutura crítica), o autoritarismo contemporâneo ganha uma feição específica: não apenas Estado contra sociedade, mas Estado + plataformas (ou plataformas contra o Estado) disputando o monopólio da mediação, com efeitos de corrosão dos mecanismos democráticos clássicos (partidos, sindicatos, instituições de controle) e fortalecimento de soluções de exceção travestidas de “eficiência”, “liberdade” ou “combate à corrupção”.
18 Musk buscou internacionalizar e escalar o conflito com o STF ao usar o controle do X para desafiar publicamente decisões de Alexandre de Moraes (incluindo a suspensão da plataforma no Brasil) e enquadrá-las como “censura”, tentando ganhar a disputa jurídico-regulatória no Brasil por meio de mobilização política e comunicacional a seu favor e pressão contra a soberania institucional brasileira.
O exemplo da postura de Elon Musk é ilustrativa e tem um caráter preditivo, por isso não pode ser tomado como uma verdade absoluta mas como um exercício análítico, porém demonstra uma tendência, ainda que estado latente, do desenvolvimento de uma contradição entre poder real e poder efetivo no atual estágio do neoliberalismo. Em síntese, o polo autoritário da contradição exerce pressão para a constituição de um regime político de autoritarismo competitivo de natureza neoliberal, no qual a associação entre estado e grandes empresas se torna ainda mais imbricada. Essa situação exige a formação de um campo de forças, de natureza autoritária, capaz de expressar, na dimensão da sociedade política, esse novo estágio do capitalismo predominantemente financeirizado e plataformizado.
No plano nacional, a leitura que apresentamos é que o fortalecimento da extrema-direita não é a causa mas uma das consequências do fim da Nova República associada ao ambiente internacional exposto anteriormente. Assim deve ser compreendido articulando três dimensões: a crise da Nova República, os impactos do neoliberalismo como paradigma do Estado e a transição mundial para uma ordem multipolar.
A) O PAPEL DA CRISE DA NOVA REPÚBLICA
A ruptura do primeiro ciclo de governos petistas por meio do impeachment de Dilma Rousseff, um “golpe parlamentar”, marca um ponto de inflexão, pois indica que os próprios mecanismos institucionais (democráticos) da Nova República passam a ser utilizados para decompor o regime em benefício de uma coalizão reacionária, apoiada setor financeiro e do imperialismo. Nesse sentido, a crise da Nova República coincide com o esgotamento da “democracia liberal” como forma de gestão de conflitos sociais.
A relação entre liberalismo e democracia nunca foi harmônica em nenhum período histórico ou país. A questão é que em períodos de expansão econômica, as tensões existentes nessa relação eram toleradas e escamoteadas. A transmutação ideológica do liberalismo clássico para uma versão mais autoritária, o neoliberalismo, no final dos anos 70, como dito anteriormente, foi uma resposta à crise estadunidense daquele período, que não poderia conciliar democracia liberal com as exigências de acumulação de capital e controle social no nível interno e hegemonia no plano externo. Mesmo assim, enquanto narrativa, o neoliberalismo foi entendido, num primeiro momento, como um mal necessário para conter o comunismo, essa propaganda foi bem sucedida, os custos das políticas de austeridade eram justificados em razão da preservação do estilo de vida “democrático” ocidental.
Porém, o bloco comunista deixou de existir, mas as políticas neoliberais não, o inimigo passa ser abertamente a classe trabalhadora, e sua agenda redistributiva e de direitos. Uma campanha antissindical brutal foi empreendida em todo o ocidente, no Brasil, especialmente nos anos 90, quando a energia da redemocratização estava presente, a tática para implantar as políticas neoliberais foi utilizar os traumas da hiperinflação dos anos 80, o inimigo aqui não era o comunismo, mas a inflação e a estabilização monetária era a única alternativa “técnica” possível. O tecnicismo é uma forma específica de autoritarismo, que teve bastante êxito no Brasil, não nega abertamente a democracia, mas sim a política, e encobre, por meio de uma propaganda massiva, outras possibilidades, ele priva dirigentes e o povo de discutir e implantar outras opções, este foi o tipo de controle social que o setor financeiro utilizou em boa parte do mundo, e com eficiência extraordinária em nosso país.
Paralelamente, a consolidação do neoliberalismo como paradigma do Estado brasileiro condiciona o modo de inserção do país na economia global e redefine o conteúdo da cidadania social. Mesmo os governos petistas que buscaram articular políticas sociais com crescimento econômico mantiveram limites importantes, e não lograram reverter a hegemonia ideológica neoliberal dentro da esfera política e estatal. O autoritarismo tecnocrático tinha alterado o conteúdo democrático do regime em menos de uma década.
A consolidação do neoliberalismo como paradigma do Estado brasileiro condiciona o modo de inserção do país na economia global.
Com todas essas condicionantes, ainda assim, ocorreu melhoras nas condições de vida das massas, em especial com os governos petistas, o que levou alguns autores a identificar o lulismo, de maneira crítica, como um projeto “melhorista” e não reformista19. Não obstante diferentes interpretações sobre o caráter destes governos, os dados demonstram que mesmo em condições de democracia limitada, há espaços para avanços, mesmo que menores do que os desejados e necessários. A questão é que este “ciclo de melhorias”, é interrompido com a ruptura do pacto democrático novorepublicano.
19 Nesta perspectiva, os governos “melhoristas”do PT seriam capazes de promover melhorias significativas e ampliadas nas condições de vida da classe trabalhadora sem, contudo, alterar de modo estrutural a forma de inserção dependente do país e a correlação de forças fundamentais do capitalismo brasileiro. José Carlos Noronha, afirma que “os governos do PT introduziram o melhorismo que, embora insuficiente, propiciou um salto de qualidade nas condições de vida da maioria dos trabalhadores do Brasil”. Autores como Francisco de Oliveira, Plínio de Arruda Sampaio Jr. e Armando Boito Jr. interpretam o lulismo como um arranjo que combina políticas redistributivas gradativas, expansão do consumo e inclusão via mercado com a preservação do pacto conservador e da ordem macroeconômica herdada, melhoram mas não transformam a estrutura de dominação de classe nem a posição periférica do Brasil no sistema mundial. Referências: NORONHA, José Carlos. A revolta contra os pobres: saúde é para poucos. In: Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 40, n. esp., p. 145‑156, 2016; SINGER, André. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, e BOITO JR., Armando. Novo desenvolvimentismo, lulismo, conflito social e Estado no Brasil. In: Revista de Economia e Sociologia do Desenvolvimento, Lisboa, n. 4, p. 41‑68, 2021.
Os dados de renda e desigualdade ilustram essa correspondência. Estudos do Ipea e da PNAD mostram que, entre 1995 e meados da década de 2010, houve significativa queda da pobreza e melhora em indicadores de educação e acesso a bens, resultado de políticas de transferência de renda, expansão do emprego formal e aumento real do salário mínimo. Contudo, os mesmos institutos, em pesquisas mais recentes, indicam que, a partir de 2014, a desigualdade de renda volta a crescer, com concentração no topo e estagnação ou perda para amplos segmentos da população, especialmente durante a recessão (2014-2016), o período de austeridade severa (2016-2022) e os anos de pandemia (2020-2021).
Em termos puramente econômicos, essa trajetória sugere que o modelo brasileiro de “inclusão pelo consumo” se apoiou em bases frágeis: dependente de ciclos favoráveis de commodities, sem reforma e modernização do sistema produtivo, com alto grau de precarização laboral, empregos de baixa qualidade e grande exposição a choques externos. Em termos políticos, o período democrático, propiciou que estes ciclos favoráveis fossem utilizados como oportunidade para algum nível de elevação do bem estar social, o que não necessariamente ocorreria em outro tipo de regime.
B) O PAPEL DOS IMPACTOS DO NEOLIBERALISMO
Diante das restrições econômicas externas, o empresariado, em especial o setor financeiro, não admite absorver os custos da recessão de 2014-2016. A partir de 2015, o consenso das elites em torno do ajuste permanente se cristaliza, e o golpe é executado contra Dilma, em ato contínuo a chamada “Uma Ponte para o Futuro” (2015) de Temer toma a forma de medidas como o Teto de Gastos (2016) e reformas que restringem a ação estatal, consolidando um regime de austeridade constitucionalizada.
A limitação drástica do gasto social, combinada à desregulamentação trabalhista e à compressão da política econômica, reduz a capacidade do Estado de responder à crise com políticas contracíclicas e de proteção social ampla, o que corrói o consentimento mínimo das massas que, por décadas, deu sustentação ao regime democrático. Em outras palavras, quando a promessa de mobilidade social ascendente cede lugar à precarização, endividamento e frustração, a legitimidade da democracia liberal passa a ser contestada por amplos setores, inclusive entre camadas populares e setores médios.
É nesse contexto que a extrema direita ascende como canalização reacionária do descontentamento social. O bolsonarismo é um fenômeno que ganha musculatura a partir do confronto com instituições da Nova República e por reivindicar, como qualquer movimento reacionário na história, o antigo regime, no caso em tela, a Ditadura Militar. O discurso de “restauração da ordem” e de combate à corrupção opera como chave de legitimação de uma agenda que combina neoliberalismo, obscurantismo, e autoritarismo. Ao rejeitar a mediação parlamentar, atacar o Judiciário e deslegitimar a imprensa, o bolsonarismo tensiona os limites da própria Constituição, práticas que podem ser qualificadas como fascistas, ainda que adaptadas às condições do capitalismo periférico e da era digital.
Sua composição ideológica é heterogênea, sendo uma interseção entre ultraliberalismo econômico, conservadorismo moral e religioso, militarismo e mobilização digital em torno de afetos negativos – ódio às esquerdas, misoginia, racismo, antipetismo e anticomunismo. Sua força está na construção de coesão social baseada na indicação precisa de um inimigo a ser derrotado, um “outro”, que será acusado pelas mazelas do presente. Isso implica em mobilizar o ressentimento social em direção às minorias, movimentos sociais e instituições de controle que são componentes ou expressões reconhecidas, a partir do seu ponto de vista, do regime ao qual se quer derrotar.
Pesquisas apontam que o bolsonarismo não se reduz a um eleitorado conjuntural, mas constitui uma formação sociopolítica com base relativamente consolidada em segmentos do empresariado, do agronegócio, de setores médios ressentidos e de setores populares desorganizados, articulados por redes de comunicação digital e por lideranças religiosas conservadoras.
Pesquisas apontam que o bolsonarismo não se reduz a um eleitorado conjuntural, mas constitui uma formação sociopolítica com base relativamente consolidada.
A extrema direita não se limita a negar a democracia; ela se oferece como uma resposta "específica" às insatisfações decorrentes do esgotamento do modelo da Nova República, ou seja, do próprio regime. O bolsonarismo, ao identificar e explorar as inseguranças e o mal-estar populares, consegue capturar o desejo de mudança. Contudo, ele o canaliza para um projeto que visa concentrar o poder nas mãos de uma facção familiar. Dessa forma, o ressentimento social, em vez de impulsionar uma democratização mais profunda, a superação do neoliberalismo e a reafirmação da soberania nacional, é desviado para uma agenda que, embora prometa "ordem", na prática deslegitima as instituições estatais e a base constitucional, ao mesmo tempo em que adota uma postura de submissão total ao imperialismo estadunidense no cenário externo.
C) O PAPEL DA TRANSIÇÃO PARA UMA ORDEM MULTIPOLAR
A ascensão da extrema-direita, no mundo, e em particular no Brasil; é atravessada pela disputa geopolítica entre soberania e imperialismo em um contexto de transição da ordem mundial. A América Latina, historicamente, foi tratada como “quintal” das potências centrais, especialmente dos Estados Unidos, que articularam intervenções diretas e indiretas, golpes e bloqueios para conter experiências que buscavam maior autonomia econômica e política. As estratégias contemporâneas de imperialismo combinam poder militar, controle tecnológico, mecanismos financeiros e pressões regulatórias para enquadrar governos do Sul global, inclusive aqueles que não se alinham diretamente a projetos progressistas.
Para preservar sua hegemonia no cenário internacional, os Estados Unidos têm adotado uma postura mais agressiva e restritiva. Isso visa limitar projetos que não se alinham automaticamente com seus interesses. Projetos democráticos que buscam articular desenvolvimento com inclusão social frequentemente procuram maior autonomia em relação às potências centrais. Essa busca se manifesta na diversificação de parcerias e na defesa de reformas em instituições multilaterais e mecanismos de integração regional. Tal autonomia não é mais tolerada pelos EUA, que, para manter seus privilégios, optam por apoiar atores internos que lhes são totalmente submissos.
Tal autonomia não é mais tolerada pelos EUA, que, para manter seus privilégios, optam por apoiar atores internos que lhes são totalmente submissos.
Projetos autoritários de extrema-direita em nações dependentes tendem a subordinar-se às agendas geopolíticas dominantes. Este alinhamento reforça a inserção primário-exportadora, a desregulamentação de recursos estratégicos e a manutenção da dependência em relação às cadeias globais controladas por países centrais. O bolsonarismo, explorando essa dinâmica, buscou legitimação externa. Embora seja, em última análise, uma peça descartável no tabuleiro do imperialismo, a família Bolsonaro procura expandir sua influência e provar sua utilidade para os propósitos de Washington. Um exemplo disso foi o apoio dado ao “Tarifaço” imposto por Trump às exportações brasileiras em 2025. Em síntese, a extrema-direita brasileira é funcional para os interesses geopolíticos estadunidenses e será uma opção sempre que convier.

3.4.2 . O polo democrático da contradição e o PT
A hipótese de trabalho que orienta esta análise é que o Partido dos Trabalhadores constitui a forma histórica de esquerda que a sociedade brasileira — e, em particular, a classe trabalhadora — efetivamente conseguiu construir no ciclo da redemocratização e da institucionalização da Nova República: com limites e erros, trata-se da “esquerda realmente existente” no plano nacional, isto é, do principal instrumento político-popular capaz de disputar o Estado e organizar expectativas democráticas.
No interregno brasileiro o polo democrático da contradição principal se organiza, de maneira predominante, em torno do PT . Isso não significa atribuir ao partido um estatuto moral de “guardião” da democracia, como aparece em alguns discursos, mas reconhecer um dado da realidade concreta: o PT permanece como o único ator remanescente do arranjo novorrepublicano com capacidade efetiva de coordenação nacional, densidade organizativa e base social estruturada suficientes para induzir algum nível de cooperação entre forças heterogêneas do campo democrático. Essa função é potencializada por uma hiper-liderança (Lula) que opera como mecanismo de coesão interna e como avalizador de compromissos aceitáveis para setores políticos distintos.
A segunda tese articulada a essa primeira é que o surgimento do PT não pode ser compreendido sem situá-lo como produto de uma derrota estratégica e militar imposta às tradições anteriores do marxismo-leninismo e do trabalhismo (Vargas, Jango, Brizola) durante a ditadura militar: a repressão não apenas desarticulou organizações que adotaram a luta armada, mas também esmagou física e institucionalmente partidos que atuavam por vias não armadas, interrompendo a continuidade do trabalho organizativo e ideológico que essas correntes haviam construído junto às massas trabalhadoras. Assim, embora as limitações teóricas, erros de leitura da realidade e as insuficiências estratégicas dessas organizações sejam componentes reais do processo, eles não explicam, por si só, seu desaparecimento como forças relevantes; sem incorporar o papel determinante da violência estatal — policial, militar e de inteligência — como mecanismo de destruição de quadros, de estruturas e de bases sociais, a interpretação fica necessariamente incompleta e tende a naturalizar como “fracasso político”20 aquilo que foi, em larga medida, uma vitória repressiva do Estado contra as organizações comunistas e trabalhistas em suas diferentes vertentes.
20 A derrota política e estratégica das organizações de cunho comunista, tal como se expressou na percepção das massas trabalhadoras, consolidou-se de forma mais nítida no Brasil apenas em momento posterior à derrota militar-repressiva imposta pela ditadura. Esse amadurecimento da derrota ocorreu em articulação com mudanças estruturais do período: a ascensão do neoliberalismo ao longo da década de 1980 e, em seguida, a desintegração do Bloco Socialista nos anos 1990, que reconfiguraram o horizonte de possibilidades e a legitimidade prática de projetos revolucionários no plano internacional. Em outros termos, se certos limites teóricos e estratégicos das organizações marxistas-leninistas já eram identificados por parcelas de sua própria direção em etapas anteriores — contribuindo para fracionamentos e pulverização organizativa nos anos 60 e 70 —, tais limites não se apresentavam, para a classe trabalhadora, como um “fracasso moral” ou como uma rejeição política orgânica por parte de suas bases: tratava-se, antes, de uma recomposição histórica das condições de luta, em que fatores externos e estruturais passaram a pesar decisivamente sobre a capacidade de essas organizações se manterem como referência de massa.
Para a compreensão dessas duas teses, é fundamental resgatar a gênese do Partido dos Trabalhadores (PT). O PT representou um ponto de inflexão qualitativo em relação à esquerda brasileira preexistente (comunista e trabalhista). Sendo assim, constitui uma novidade histórica, o que demanda a análise das razões de sua formação. Em meados dos anos 1970 a classe operária urbana moderna torna-se o vértice de um novo ascenso de massas no Brasil. As greves do ABC (a partir de 1978) produzem um contingente militante autônomo, ou pelo menos com baixa influência, em relação às organizações de esquerda tradicionais (que já haviam sido desmanteladas pela repressão), e uma liderança própria, cuja expressão mais acabada foi Lula.
O PT se constitui como projeto aglutinador de expressões de contestação ao regime militar, que sobreviveram à repressão. Essa convergência se deu em três eixos fundamentais: (a) a capilaridade territorial e a proteção institucional oferecidas pelas CEBs e pela Teologia da Libertação; (b) o novo sindicalismo, que introduz prática de luta de classes direta e independência frente à tutela estatal do movimento sindical oficial; e (c) remanescentes de organizações marxistas que veem no partido de massas a possibilidade de recompor um horizonte estratégico socialista.
Essa origem se converteu numa forma organizativa singular: um partido-movimento, que, ao rejeitar a universalidade do modelo leninista clássico, buscou resolver a fragmentação da esquerda por meio de um sistema de tendências com regras de unidade, permitindo a coexistência de correntes internas sem dissolver a coesão partidária.
A diferença decisiva entre o modelo leninista de partido predominante até então e o PT está no modo como cada forma política se constitui e organiza sua relação com a classe trabalhadora. Os partidos leninistas nascem, em geral, de uma origem doutrinária: partem em especial de uma expressão particular do marxismo-leninismo e, a partir desse corpo de ideias e um programa, buscam disputar a influência nas massas e dirigir o processo político. Sem nenhum demérito ou avaliação moral, a origem deste tipo de organização é, em geral, exterior a classe, não são objetivamente representantes da classe, mas representantes de um projeto de sociedade no qual os trabalhadores e trabalhadoras são a fração social portadora da condições objetivas de ruptura com o sistema capitalista, e construção do socialismo. O PT parte de uma perspectiva inversa: ele é expressão de movimentos reais das massas em ascenso— em especial as greves operárias e a recomposição do sindicalismo — e só depois foi estabelecendo um programa estratégico, definindo-se mais por tarefas políticas concretas (como enfrentar a ditadura e articular trabalhadores) do que por uma identidade doutrinária.
A diferença decisiva entre o modelo leninista de partido predominante até então e o PT está no modo como cada forma política se constitui e organiza sua relação com a classe trabalhadora.
Essa diferença de origem e método organizativo se desdobra na forma de direção: o partido leninista se compreende como vanguarda da classe trabalhadora, buscando liderar e unificar suas lutas em todos os terrenos; o PT, ao contrário, nasce como braço institucional dos movimentos sociais, por isso pode ser denominado como um “partido-movimento” em que, frequentemente, a decisão do movimento prevalece sobre a disciplina partidária. Por fim, enquanto o modelo leninista exige unidade teórica e centralização doutrinária, o PT se consolidou como frente institucional, concebido para enfrentar a fragmentação da esquerda, acolhendo múltiplas matrizes sob o sistema de tendências, no qual antigas organizações abandonavam estruturas próprias para coexistir em uma unidade política prática, ainda que ideologicamente heterogênea.

Essa singularidade do petismo está diretamente associada ao ascenso do movimento de massas no final da ditadura e na transição democrática: sem esse ciclo de mobilizações, as condições materiais e políticas para a construção de um partido “de baixo para cima”, ancorado no movimento real da classe, teriam sido severamente constrangidas — quando não inviabilizadas. O ponto decisivo é que a ascensão das lutas operárias e populares funcionou como variável crítica que abriu espaço para uma forma partidária cuja identidade não se definia, de início, por um corpo doutrinário comum, mas por uma agenda prática de combate à ditadura, organização dos trabalhadores e conquista de direitos. Em contraste, as organizações leninistas clássicas tendem a conceber períodos de crise de hegemonia como oportunidade para consolidar uma direção ideológica, capaz de converter a energia contestatória em estratégia de ruptura e transição ao socialismo. No caso do PT, ao contrário, o próprio ascenso social produziu a demanda por representação e mediação institucional: o partido não nasce primordialmente para “dirigir” a contestação rumo a um horizonte socialista previamente delimitado, mas para funcionar como ferramenta política de pressão, ampliando a capacidade de negociação e de disputa do movimento na arena estatal, sem dissolver a autonomia das organizações de base. A diferença é crucial porque revela uma diferença qualitativa entre forma partidária: enquanto o leninismo se define como vanguarda que pretende elevar a consciência e orientar o processo para a ruptura, o petismo se constitui como expressão e síntese das necessidades imediatas percebidas pela classe trabalhadora em processo de reorganização, buscando representá-las e traduzi-las em conquistas e institucionalidade. A força do PT estava no desenvolvimento de uma contradição: ao mesmo tempo que seu sucesso encontrava-se no vínculo estreito com a classe trabalhadora, também era limitada pela consciência política da mesma, naquele período, restringindo a possibilidade de adotar uma posição de natureza revolucionária.
O efeito dessa morfologia, no ciclo ascendente da redemocratização, foi fazer do PT o principal canal de tradução institucional do conflito distributivo, preservando, ao menos em parte, a primazia da disciplina do movimento sobre a disciplina burocrática. Em termos do método, isso equivale a dizer que o PT, naquele estágio, operava como mediação democrática popular: convertia energia social em disputa política organizada, ampliando o campo do possível no interior do regime que estava em constituição.
O ponto de inflexão decisivo está na transição tática posterior: a postura crítica dos anos 1980 — como o boicote ao Colégio Eleitoral que elegeu indiretamente Tancredo e a forte oposição ao texto final produzido pela Constituinte— dá lugar, nos anos 1990, a uma mudança qualitativa. Em 1989, o programa petista para as eleições ainda articulava a conquista do Executivo a um programa anti-imperialista e antimonopolista e a uma estratégia de organização de massas. Em 1995, sob impacto do fim da URSS e avanço do neoliberalismo que constrange as promessas da Nova República, a estratégia é substituída por uma tática eleitoral de governo de coalizão, voltada a operar explicitamente dentro da ordem liberal.
É nesse deslocamento que se identifica o transformismo em trânsito (Gramsci) e o fenômeno do melhorismo como chave interpretativa. O transformismo, aqui, não é uma acusação moral, mas a descrição de uma pressão estrutural que tem dois elementos fundamentais. Em primeiro lugar a burguesia, como força hegemônica, sempre procura enquadrar partidos operários para fazê-los operar como administradores do possível dentro de restrições duráveis (fiscais, monetárias, legais e ideológicas), ou seja, força sempre para garantir que a contestação seja processada dentro das regras do jogo por ela estabelecida. O segundo aspecto é que o PT surgiu e cresceu acompanhando o movimento de massas, este sempre foi seu trunfo; nos anos 90 a classe trabalhadora em geral entra em um período defensivo o que afeta profundamente o PT. A partir daí, o PT se desloca progressivamente do partido-movimento ao partido-instituição, intensificando sua dependência das engrenagens de governabilidade da Nova República: a democracia liberal passa a ser defendida e reproduzida como forma de gestão da ordem e não como instrumento de transição para uma democracia popular.
O melhorismo, por sua vez, designa a substituição da estratégia democrático-popular por uma lógica de melhorias materiais para a classe trabalhadora, porém dentro da ordem, sem horizonte transformador. Aqui reside uma contradição interna do petismo: sua eficácia eleitoral e institucional aumenta, mas sua capacidade de operar confrontos estruturais declina.
Algumas interpretações atribuem esse processo ao chamado “abandono do trabalho de base” pelo petismo, entendido como um deslocamento deliberado em relação à classe. Embora essa fórmula tenha se popularizado na militância, e possa capturar um elemento real, ela não pode ser tomada como explicação totalizante, porque pressupõe uma escolha consciente e suficientemente eficaz da direção partidária como causa principal do fenômeno. Essa leitura, além de confortável, tende a avaliar o PT por critérios típicos de um partido leninista — isto é, como se o centro dirigente dispusesse de capacidade orgânica para determinar, de modo relativamente homogêneo, o comportamento de toda a militância e sua inserção social. No caso do PT, cuja morfologia histórica foi marcada por uma relação mais porosa e mediada com movimentos e organizações de base, a dinâmica é distinta: quando a própria classe trabalhadora experimenta um recuo político, ideológico e organizativo, sob pressões materiais e culturais, o partido tende a retroceder junto com ela, seja por perda de capilaridade, seja por rebaixamento do repertório de ação coletiva. Por isso, a explicação em termos de “crise de direção”, como preferem os trotskistas, é no mínimo insuficiente, em um partido-movimento, a cognição geral de sua direção e militância não é tão distinta quanto se pensa do cognição geral da classe, há níveis de correspondência muito mais estreitos do que pode parecer. Por outro lado, há um outro erro possível: responsabilizar a “classe” como se fosse um sujeito livre que simplesmente escolheu recuar. O recuo deve ser compreendido como produto de determinações históricas objetivas: políticas de controle social, ampliação e intensificação da exploração do trabalho, precarização e fragmentação decorrentes do neoliberalismo e da reestruturação produtiva, que corroem vínculos coletivos e debilitam formas tradicionais de organização. Nesse sentido, o transformismo do PT não pode ser analisado apenas como desvio interno ou vontade política, mas como resultado de uma interação contraditória entre forma partidária, correlação de forças e o atual estágio do capitalismo periférico, que reduz margens de manobra, reconfigura sujeitos e desloca a luta para terrenos menos favoráveis.
O transformismo do PT não pode ser analisado apenas como desvio interno ou vontade política, mas como resultado de uma interação contraditória entre forma partidária, correlação de forças e o atual estágio do capitalismo periférico.
Isso não implica isentar a direção petista de erros e insuficiências — que existem e produzem efeitos objetivos —, mas situá-los corretamente no tipo de organização de que se trata. Em um partido-movimento, a direção tende a funcionar menos como um núcleo autônomo de comando (estado-maior), dotado de capacidade para impor uma linha geral homogênea ao conjunto da militância, e mais como condensação mesmo que mais bem acabada, do nível médio de consciência política de sua base social e militante. Por isso, suas orientações são frequentemente puxadas por demandas imediatas, pela pressão do calendário institucional e pelas expectativas concretas de proteção e melhoria de vida, e não, prioritariamente, por uma lógica de vanguarda fundada na síntese superior entre teoria e prática, na formulação estratégica de longo prazo e em um aparato organizativo capaz de disciplinar a militância e dirigir as massas. Diferentemente do modelo leninista clássico — em que a qualidade da direção se mede, em grande medida, pela capacidade de elevar a consciência, construir estratégia e orientar um sujeito social que tende a perceber seus problemas de forma fragmentada —, no caso petista a direção é atravessada pela mesma experiência histórica e por limites muitos parecidos que conformam a base que pretende representar. O problema analítico, portanto, não é escolher entre “culpar” ou “absolver” a direção, mas compreender a dialética entre forma partidária, consciência social e condições objetivas, que condiciona tanto os acertos quanto os impasses do partido. Essa especificidade torna a crítica mais exigente: em vez de supor que bastaria “corrigir” a direção para reorganizar automaticamente a base, é preciso analisar como direção e base se determinam reciprocamente sob a correlação de forças e sob as pressões estruturais do período.
Assim, o PT funciona como centro de gravidade do campo popular: por ter entregado melhorias reais e por ser referência histórica, exerce força que limita a capacidade de alternativas de esquerda. A chamada esquerda radical, que pretende, pelo menos nas intenções, uma nova estratégia política, acaba por ser medida pela posição que tem em relação ao PT, e o máximo que consegue ser é “antipetista” e não uma outra coisa, com um sentido completamente autônomo, a consequência prática é o isolamento social.

No interregno, o petismo entra em um estágio crítico. O transformismo do PT o fez um partido da ordem; é um ator fundamental, mas vestigial de um regime político que deixou de existir. Suas contradições entram em um estado mais agudo, isso porque a democracia liberal permitia certa latência dos impasses mais profundos, essa margem de manobra terminou, os limites de tolerância por parte das classes dominantes se estreitaram profundamente neste quadrante histórico, isso ficou evidente com o golpe de 2016, e ao que tudo indica irá se intensificar. A resposta do partido a essa situação parece não estar elaborada, nem vivemos um período de ascensão do movimento de massas para atuar como contratendência à burocratização, o que o torna mais vulnerável à chantagem permanente da governabilidade e moderação política. Essa situação é uma condicionante para que o PT possa atuar como um partido que de fato utilize o capital político acumulado para no lugar de ser consumido pelo interregno, o utilize como oportunidade de se reinventar e assumir um papel ainda mais relevante na construção de um novo regime político, sobre bases mais democráticas e populares.
No interregno, o petismo ingressa em um estágio crítico e mais instável. O processo de transformismo o levou à condição de partido da ordem: permanece um ator fundamental para a coordenação do campo democrático, mas, ao mesmo tempo, é a expressão “vestigial” Nova República. Nessa transição, suas contradições internas se agudizam porque a democracia liberal, enquanto forma relativamente estável de mediação, permitia certa latência de impasses estruturais — uma margem de manobra que se estreitou drasticamente no atual quadrante histórico. O golpe de 2016 foi um marco dessa mudança: indicou que os limites de tolerância das classes dominantes diante do “melhorismo” se reduziram, e tudo sugere que essa disposição de veto tende a se intensificar conforme a crise do capitalismo aprofunda a polarização social e a competição por recursos e rendas.
Diante desse cenário, a resposta estratégica do PT aparece insuficientemente elaborada: não há, no presente, um ciclo de ascensão do movimento de massas capaz de funcionar como contratendência à burocratização e de reequilibrar a relação entre partido, base social e iniciativa política. Isso torna o partido mais vulnerável à chantagem permanente da governabilidade — isto é, à pressão para moderar objetivos, diluir programas e operar apenas pela administração do possível —, com risco de consumo acelerado de seu capital político. Ao mesmo tempo, essa mesma condição histórica pode ser lida como oportunidade: se conseguir transformar o acúmulo político e social que ainda possui e converter-se em agente de reinvenção, contribuindo para a construção de um novo regime político assentado em outras bases, capazes de ampliar a capacidade de coordenação estatal, reconstruir vínculos de representação e sustentar reformas sob um horizonte político mais amplo, para além do “possível” cada vez mais limitado oferecido pelas classes dominantes.
Por fim, o PT não pode ser analisado apenas no plano interno: ele é sobredeterminado pelo conflito geopolítico “soberania vs. submissão” e pelo ambiente de transição multipolar. Os projetos que combinam inclusão social e desenvolvimento tendem a buscar maior autonomia externa, o que eleva os custos de tolerância do hegemon e incentiva apoios a atores internos submissos.
O PT não pode ser analisado apenas no plano interno: ele é sobredeterminado pelo conflito geopolítico "soberania vs. submissão" e pelo ambiente de transição multipolar.
Assim, a disputa no interregno no Brasil converte-se em terreno decisivo para o grau de autonomia nacional: uma regime político condicionado pela austeridade neoliberal, capturado por interesses rentistas e vulnerável a ofensivas autoritárias tende a reproduzir inserção subordinada; inversamente, uma alternativa democrática que ultrapasse a alternância eleitoral — incorporando participação, redistribuição, proteção ambiental e planejamento de longo prazo — implica enfrentar simultaneamente a dependência externa e as forças políticas internas que a reproduzem.
É nesse ponto que o “esgotamento do melhorismo” se torna problema estratégico: se o PT permanecer como operador de gestão sem estratégia de transição para um outro regime, corre o risco de tornar-se uma ala esquerda da ordem exatamente quando o capitalismo intensifica sua face antidemocrática; e, no cenário pós-Lula, a figura que hoje unifica divergências pode deixar de operar, elevando o risco de extrema fragmentação e paralisia na esquerda brasileira.

4. A SUPERAÇÃO DA CONTRADIÇÃO PRINCIPAL
A contradição principal, democracia versus autoritarismo é o problema estratégico do interregno. Porém essa situação não é perene, irá se deslocar para a constituição de um novo regime político cuja a natureza ainda é incerta.
A questão é que o polo autoritário da contradição, sob a liderança da extrema-direita bolsonarista, possui uma proposta mais bem definida e coerente com as atuais exigências de reprodução do capitalismo dependente em sua fase atual, que classificamos de um regime político de autoritarismo competitivo, cuja descrição já realizamos anteriormente.
Por outro lado, o polo democrático da contradição, sob a liderança de Lula e do PT, possui vantagens eleitorais, mas constrangimentos estruturais de ordem estratégica, também já detalhados. A questão colocada é que o PT e o campo que lidera, ao que parece, não lê o período atual como um interregno, mas como uma nova fase da Nova República, portanto, atua balizados em regras formais e tácitas próprias do período anterior. Não aponta e nem disputa estrategicamente um regime novo, mas defende o velho, que nem a extrema-direita, nem o centrão respeitam mais.
Se é correto afirmar que os vestígios institucionais da Nova República, em alguns campos existem e produzem efeitos, é também verdade que não funcionam mais como orientadores comuns da prática de todos os atores, seja na prática do golpismo permanente, seja no semipresidencialismo imposto pela maioria do Congresso Nacional. Assim, sem apontar para uma nova ordem democrática, de natureza soberana e popular, que significa necessariamente assumir enfrentamentos e não se restringir a operações negociadas de maneira rebaixada, imposta pela correlação de forças atual.
A nova ordem de superação do interregno, que apresentamos aqui lançando mão de alguma liberdade ensaística, teria o contorno ótimo de um regime político democrático de natureza soberana e popular, capaz de inaugurar um novo terreno de disputa para as forças socialistas e revolucionárias. Para tal empresa, algumas das condições teriam de estar presentes, destacamos as seguintes:
O PT necessitaria passar por um processo de atualização de natureza progressista, visando combater o burocratismo e que inaugurasse uma nova abordagem em relação a classe trabalhadora, saíndo da posição de um partido-institucional de representação das suas demandas imediatas e possíveis, que descrevemos como “melhorismo”, e passe a atuar como uma direção consciente e avançado nas camadas populares e do sentido nacional brasileiro, forçando os limites impostos pelo neoliberalismo. Isso, possibilitaria um novo papel para o PT, utilizando suas forças internas (variável endógena) para se reconstituir no novo contexto.
Um novo ascenso de massas no Brasil. Para o PT, poderia ser aproveitado se desburocratizar, agindo como uma variável exógena, uma oportunidade, para corrigir seus limites internos atuais. O ascenso poderia ainda criar uma nova esquerda, novas lideranças e um novo arranjo político e organizativo de natureza avançada, cujo formato não é possível prever.
O prolongamento temporal do interregno e agudização de sua instabilidade, com a fragmentação e a perda gradual da liderança do PT sobre o polo democrático da contradição, possibilitando o surgimento de um novo ator, que em condições defensivas consiga atuar como “minoria organizada”, dotada de coesão, coordenação e horizonte estratégicos suficientes definidos para constituir bases sociais próprias, para além do petismo e do antipetismo, o seja, que consiga definir sua política por meio de uma gramática própria.
É importante destacar que em nenhuma das condições apresentadas, o PT deixa de existir ou é substituído, ele permanece dentro das condições que conseguir. Da mesma forma, a tese do surgimento de um “novo Lula” é no mínimo infantil, os acontecimentos históricos produzem as lideranças que lhe são particulares, não as clonam de períodos anteriores. Lula é insubstituível, uma liderança única que se fez a partir de um momento de ascensão do movimento de massas determinado. Não haverá outra liderança que reúna as mesmas características, porque as condições históricas, simplesmente são outras.
Por fim, cabe ressaltar que o desfecho do interregno é produto da correlação de forças, pode desaguar em um regime autoritário competitivo ou em uma democracia soberana e popular, mas o que é mais provável, dentro das condições de análise atual, que será um arranjo intermediário entre as duas possibilidades. Fora desse espectro, está a dimensão do imponderável, que pode acontecer, dependendo das mudanças das condições de desenvolvimento das contradições no nível internacional; a guerra aberta entre as potências geopolíticas, por exemplo, pode criar diferentes possibilidades, mas disruptivas, e não necessariamente mais progressistas.
O mais provável é um arranjo intermediário entre autoritarismo competitivo e democracia soberana-popular.

5. DESAFIOS IMEDIATOS PARA 2026
A partir dessa leitura de período é necessário enfrentar os desafios imediatos impostos pela conjuntura atual. Neste ponto, assumimos uma abordagem mais sintética e direcionada para assistir a ação política.
A principal agenda política do ano são as Eleições Gerais de 2026, que podem ser classificadas como acontecimento estruturante da conjuntura imediata e como teste concentrado da contradição principal, então nos concentramos nela neste momento. A disputa tende a ser sobredeterminada por duas variáveis transversais a todo debate, mesmo que não de maneira explícita: (i) se haverá capacidade política de sustentar um caminho democrático com coordenação estatal políticas públicas (desenvolvimento, inclusão e sustentabilidade) e superar ou mitigar a austeridade paralisante sem criar descontrole inflacionário; e (ii) se o polo autoritário conseguirá recompor-se como projeto com aderência de massa articulando punição social, guerra cultural e dependência externa. A implicação é evidente: ou a democracia brasileira se reconstrói com densidade material e base social, ou permanecerá vulnerável a ciclos de desgaste que reabrem, reiteradamente, a porta para novas formas de autoritarismo.
Diante disso apontamos:
A reeleição de Lula em 2026 é condição necessária, mas não suficiente, para frear o avanço da agenda autoritária no Brasil. É crucial, e este é um ponto de convergência no campo progressista, focar no aumento da representatividade parlamentar democrática. Embora seja improvável alcançar a maioria absoluta, é tangível elevar o custo político para o centrão. Uma estratégia promissora seria o uso mais enfático e estratégico da consigna “Congresso Inimigo do Povo”, que se mostrou um ponto fraco do centrão, mas foi explorada de forma limitada até o momento.
Assumir de maneira mais decisiva a defesa da soberania nacional frente às agressões políticas e militares do imperialismo estadunidense. A consigna “Brasil Soberano” fomentou coesão nacional frente ao “Tarifaço” e pode funcionar como elemento aglutinador de segmentos eleitorais disputáveis em 2026, em especial, os descritos como Centro em Dúvida e Contradição (26%) e Populares por Proteção e Ordem (13%) que representam somados 39% do eleitorado.
É crucial disputar a aprovação e promover uma intensa mobilização política em torno de agendas de grande apelo popular, como o Fim da Escala 6x1, a Regulamentação do Trabalho por Aplicativo e a Tarifa Zero. É provável que as duas primeiras propostas sejam debatidas no primeiro semestre, com chances reais de serem aprovadas. Se isso ocorrer, representará uma entrega significativa do governo Lula, beneficiando o campo democrático.
É crucial combater a influência das big techs, pois há o risco de intervenção destas no processo eleitoral em favor da extrema-direita. No plano prático, a disputa no meio digital deve continuar concentrada no WhatsApp, mas com a produção de conteúdo crescentemente mediada por IAs, o que aumenta o perigo de deepfakes virais. Diante disso, é fundamental que cada campanha progressista estabeleça uma frente de atuação específica e dedicada a este espaço.
É necessário articular de maneira estratégica as disputas eleitorais nacionais e estaduais, reconhecendo que esta tende a ser a última disputa eleitoral do presidente Lula, que, sem sombra de dúvida, é o principal cabo eleitoral das candidaturas proporcionais em todos os níveis. Não é possível prescrever uma estratégia eleitoral única para o conjunto heterogêneo de candidaturas, mas é possível sustentar duas orientações gerais: evitar o dispêndio de energia e recursos no segmento identificado com o bolsonarismo e, simultaneamente, evitar pautas sensíveis ao eleitorado do “centro oscilante”, sobretudo no caso de candidaturas que não dispõem de um nicho específico com densidade eleitoral suficiente para assegurar a vitória.
Por fim, neste ano, é imperativo que o campo democrático demonstre coesão política para fazer frente à aliança da extrema-direita com interesses externos. É crucial classificar a candidatura de Flávio Bolsonaro como antinacional, ao mesmo tempo em que se deve destacar os resultados e as conquistas sociais alcançadas do governo Lula.
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